O cenário político da Costa do Descobrimento e do Extremo Sul baiano foi sacudido nesta semana por novos e explosivos desdobramentos da Operação Colligatio, da Polícia Federal. O alvo central é o ex-deputado federal Uldurico Junior (MDB), mas o que começou como uma investigação eleitoral transforma-se agora em um enredo que mistura crime organizado, herança política e um histórico familiar marcado por embates com a Justiça que remontam a décadas.
O Elo com o Cárcere: Votos a R$ 100 e Regalias
A investigação da PF aponta que Uldurico teria utilizado a mediação de Joneuma Silva Neres, ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, para negociar apoio com chefes de facções. O objetivo seria garantir o "voto de cabresto" em bairros periféricos de Teixeira de Freitas na eleição de 2024.
Segundo o inquérito, a diretora facilitava a entrada de aparelhos eletrônicos e regalias para detentos de alta periculosidade, como o líder conhecido como "Dadá" (Wellington Santos), em troca de influência eleitoral. Estima-se que cada voto tenha custado R$ 100,00. Joneuma, que já estava sob os holofotes por facilitar a fuga de 16 presos em dezembro de 2024, agora é o pivô de um drama pessoal: ela move uma ação de investigação de paternidade, afirmando que Uldurico é o pai de seu filho — tese que a defesa do político contesta, exigindo exames de DNA.
A Sombra do "Pãozinho" e a Herança de Porto Seguro

Para os moradores de Porto Seguro, o sobrenome Pinto e a atuação de Uldurico não são novidade. Em 2020, ele foi candidato a prefeito da cidade com o apoio direto da Deputada Estadual Claudia Oliveira (PSD). Na época, a aliança foi vista como uma tentativa de perpetuar um grupo político que já havia sido alvo da Operação Fraternos, que investigou uma "ciranda de licitações" envolvendo as prefeituras de Porto Seguro, Eunápolis e Santa Cruz Cabrália.
A trajetória de Uldurico Junior carrega o peso de uma genealogia política conturbada:
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O Caso do Pãozinho: Seu tio, o ex-prefeito Ubaldino Junior, tornou-se símbolo de corrupção na região ao ser condenado pelo desvio de recursos da merenda escolar, esquema que ficou nacionalmente conhecido pelo faturamento fraudulento de pães e outros alimentos.
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Repetição de Métodos: Para analistas locais, o atual esquema de "votos negociados no presídio" guarda semelhanças estruturais com as práticas do passado: a troca do recurso público (ou da facilitação estatal) pelo controle do voto popular.
O Impacto no "Xadrez" de 2026
Com a Operação Colligatio, Uldurico Junior vê sua tentativa de reabilitação política para 2026 entrar em colapso. O isolamento é evidente. Antigos aliados, incluindo a base ligada à Deputada Claudia Oliveira, hoje buscam distanciar suas imagens de um inquérito que envolve facções criminosas e favorecimento em presídios.
A defesa do ex-deputado reitera que a operação é "requentada" e possui motivações políticas para impedir sua candidatura futura. No entanto, o inquérito revela uma face mais sombria da política regional, onde o diálogo entre o gabinete e a cela parece ter sido a estratégia de sobrevivência de um grupo que perdeu espaço nas urnas legítimas de Porto Seguro.
A política no Extremo Sul baiano sempre foi um jogo de heranças. Mas, em 2026, com o avanço da tecnologia e o monitoramento rigoroso da Polícia Federal, o método de controle — seja ele via "pãozinho" ou via facção — enfrenta sua maior crise de credibilidade. A pergunta que fica para o eleitor é: até quando os sobrenomes de ontem ditarão as regras de amanhã?

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