A indicação de Jorge Messias para a cadeira deixada por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF) consolida a ascensão de um dos quadros mais técnicos e leais do atual governo. Aos 46 anos, o procurador da Fazenda Nacional e atual Advogado-Geral da União (AGU) é a aposta de Lula para garantir uma voz equilibrada, mas o caminho para a Praça dos Três Poderes exige que ele enfrente, novamente, o fantasma de 2016.
Pernambucano e doutor em Direito pela UnB, Messias não é um aventureiro jurídico. Sua carreira é marcada por uma passagem resiliente pela burocracia estatal. Atuou em postos-chave nos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, acumulando uma experiência em gestão pública que poucos nomes da corte possuem.
Dentro da AGU, é respeitado pela capacidade de diálogo — inclusive com o setor evangélico, do qual faz parte. No entanto, sua biografia carrega uma cicatriz que a oposição faz questão de reabrir a cada nova indicação: o caso "Bessias".
O episódio que quase encerrou sua carreira pública ocorreu em março de 2016. Em um dos grampos mais famosos da Operação Lava Jato, a então presidente Dilma Rousseff dizia a Lula: "Tô mandando o 'Bessias' junto com o papel, pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse".
O erro de pronúncia da presidente batizou o escândalo. A interpretação da época, inflamada pelo juiz Sergio Moro, era de que Messias atuava como o braço operacional de uma manobra para conceder foro privilegiado a Lula e evitar sua prisão. Para Messias, aquela foi a "maior ferida" de sua trajetória: a transformação de um ato administrativo — levar um documento para assinatura de um futuro ministro — em um suposto crime de obstrução de justiça.
Apesar do estrondo midiático que o persegue há uma década, o desfecho jurídico do caso é favorável a Jorge Messias.
Absolvição Sumária: Em 2019, o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, absolveu Lula, Dilma e Jorge Messias da acusação de obstrução de justiça no episódio do termo de posse. A Justiça entendeu que não houve dolo (intenção) de obstruir a lei e que o ato era administrativo.
Decisão do STF: O próprio Supremo Tribunal Federal, anos depois, anulou as condenações da Lava Jato e considerou as interceptações de Moro irregulares em diversos aspectos, esvaziando o valor jurídico daquela gravação.
Mesmo com o "nada consta" judicial, a ferida política permanece aberta. Na sabatina do Senado, Messias não será questionado apenas sobre sua tese de doutorado ou sua visão sobre o marco temporal; ele terá que explicar, olho no olho com ex-integrantes da Lava Jato hoje senadores, que o "Bessias" de 2016 era apenas um servidor cumprindo ordens e que o Jorge Messias de 2026 está pronto para a independência da toga.
A questão que fica para os parlamentares é: o mensageiro do passado pode ser o juiz imparcial do futuro? Messias aposta que sua conduta técnica na AGU já respondeu a essa pergunta.

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