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Coluna/Opinião

REFLEXÃO

O turista não está pedindo favor. Ele está pagando por respeito.

REFLEXÃO
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Existe um erro grave que se repete em cidades turísticas do Brasil inteiro. Um erro silencioso, normalizado, quase cultural. O de tratar o turista como alguém que deveria agradecer por estar ali. Como se a cidade estivesse fazendo um favor. Como se abrir um restaurante, um bar, um beach club, um passeio, um receptivo ou um hotel fosse um ato de generosidade. Como se o visitante estivesse “dando trabalho”. Não está!
O turista não chega por acaso.
Ele escolhe.
Escolhe a cidade.
Escolhe o destino.
Escolhe o hotel.
Escolhe o restaurante.
Escolhe o passeio.
Escolhe gastar ali o dinheiro que ele poderia gastar em qualquer outro lugar do mundo. E essa escolha, quase sempre, custou caro antes mesmo do primeiro gasto. Custou tempo. Custou planejamento. Custou expectativa. Custou sonho.
Enquanto muita gente age como se o turista tivesse obrigação de consumir, ele passou meses organizando a própria vida para estar ali. Ajustou férias. Juntou dinheiro. Abriu mão de outras coisas. Em alguns casos, esperou um ano inteiro. Em outros, dois. Na mesma cidade, no mesmo dia, no mesmo restaurante, podem estar sentados perfis completamente diferentes.
Um casal em lua de mel, vivendo um dos poucos momentos da vida que nunca se repetem.
Um casal tentando salvar um casamento, buscando leveza onde a rotina virou peso.
Uma pessoa sozinha, lutando contra a depressão e tentando respirar fora do lugar onde tudo aperta.
Um pai que trabalhou o ano inteiro para dar aos filhos a primeira viagem da vida.
Uma mulher que acabou de sair de um luto e decidiu não desistir de viver.
Um jovem que economizou centavo por centavo para conhecer o mar.
Alguém que está tentando se reencontrar.
Nada disso aparece na conta.
Nada disso está no cupom fiscal.
Mas tudo isso está sentado à mesa.
E ainda assim, em muitos lugares, o turista é tratado como se estivesse atrapalhando.
Consumação mínima imposta como regra absoluta.
Cobrança para sentar.
Pressão para consumir mais do que quer.
Abordagem agressiva.
Olhar atravessado quando decide não pedir outra rodada.
Tratamento diferente porque chegou de excursão, de ônibus, de carro, de avião, de moto, de bicicleta ou até a pé.
Como se a forma de chegada diminuísse o valor da presença.
Não diminui.
Não importa se o turista veio em voo internacional ou em ônibus rodoviário.
Não importa se veio de carro próprio ou de moto.
Não importa se gastou muito ou pouco naquele dia específico.
O simples fato de ele estar ali já é resultado de uma cadeia enorme de investimento, esforço e decisão.
Turismo não é esmola.
É economia real.
Cada turista sustenta uma engrenagem invisível.
Emprego direto.
Emprego indireto.
Renda.
Imposto.
Movimento.
Sobrevivência de negócios que não existiriam sem ele.
E mesmo assim, há quem aja como se estivesse fazendo um favor.
Esse é o ponto onde cidades turísticas começam a errar sem perceber.
Porque o turismo não quebra de uma vez.
Ele se desgasta.
Primeiro vem a sensação de desconforto.
Depois a falta de recomendação.
Depois a reclamação discreta.
Depois o comentário negativo.
Depois a troca de destino.
E quando se percebe, o movimento caiu e ninguém entende por quê.
Não foi azar.
Não foi crise.
Não foi acaso.
Foi comportamento.
Respeitar o turista não é se submeter.
É compreender o papel que ele ocupa.
Ele não está ali para ser explorado.
Nem para sustentar abuso.
Nem para aceitar regra absurda travestida de “política da casa”.
Nem para pagar pelo mau humor de quem esqueceu que vive do turismo.
Quem trabalha com turismo não vende só produto.
Vende experiência.
Vende sensação.
Vende memória.
E memória ruim não volta.
Cidades turísticas que prosperam entenderam isso.
Cidades que decaem costumam achar que o turista sempre volta.
Não volta.
O mundo é grande.
Os destinos são muitos.
A escolha é livre.
O turista não deve nada à cidade.
É a cidade que deve respeito a quem a escolheu.
Não como favor.
Mas como consciência.
Porque quem entende o valor do turista protege o próprio futuro.
FONTE/CRÉDITOS: Por Vinicius Brandão
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