A política municipal costuma ter memória curta. Muitas vezes os nomes surgem, passam e desaparecem conforme o vento das eleições. Mas existem personagens cuja história se mistura de tal forma com a própria formação da cidade que, mesmo quando não estão no poder, continuam fazendo parte da paisagem política.
Em Porto Seguro, um desses nomes é Ubaldino Júnior.
Filho de Baiano, uma figura histórica da política regional que também foi prefeito de Porto Seguro e de Santa Cruz Cabrália, Ubaldino cresceu em meio ao ambiente político. Baiano não foi apenas um gestor municipal. Foi também alguém que ajudou a construir símbolos culturais da cidade. Foi dele, por exemplo, a encomenda da música “Porto Seguro”, gravada pela banda Asa de Águia, que acabou se transformando em um verdadeiro hino informal do município e até hoje embala festas, eventos e momentos de orgulho local.
Essa herança política e cultural moldou o caminho do filho.
Ubaldino Júnior construiu uma trajetória marcada por alianças fortes, disputas intensas e também por momentos difíceis, incluindo acusações que ao longo do tempo foram enfrentadas dentro do próprio campo político e jurídico. Como acontece com quase todos os líderes que permanecem por muito tempo na arena pública, sua história foi feita de embates, rupturas, reconciliações e aprendizado.
Ao longo dessa trajetória, Ubaldino também foi alvo de denúncias que ganharam forte repercussão nacional, especialmente em reportagens exibidas pela televisão. Um dos episódios mais lembrados foi o chamado caso do “pãozinho”, que acabou se transformando em símbolo de uma narrativa jornalística que, com o passar do tempo, mostrou se distanciar da realidade dos fatos.
Na época, a denúncia sugeria irregularidades na contratação de fornecimento de pães para programas públicos do município. Porém, posteriormente ficou comprovado que a licitação havia sido vencida por uma empresa sediada em Salvador, dentro das regras do processo licitatório. A produção dos pães, inclusive, era realizada em Porto Seguro, o que gerava emprego e renda localmente.
Ou seja, aquilo que foi apresentado ao público como um escândalo acabou revelando, anos depois, muito mais uma narrativa deturpada e irresponsável, construída sem a devida apuração completa dos fatos e amplificada em meio a disputas políticas da época.
Esse episódio acabou marcando a imagem pública de Ubaldino por muito tempo. Mas há um dado objetivo que sempre volta à tona quando se revisita essa história: Ubaldino nunca foi condenado à prisão nem submetido a medidas como tornozeleira eletrônica em nenhum dos processos que enfrentou ao longo de sua vida pública.
Esse detalhe, muitas vezes ignorado nas manchetes da época, passou a fazer parte da leitura política posterior feita por muitos moradores da cidade.
Mas o que chama atenção agora não é apenas o passado. É a transformação.
Durante muito tempo, quem o encontrava percebia um político com ar sério, carregando o peso das disputas e das responsabilidades. Havia um semblante cansado, pesado, quase intimidador para quem não o conhecia de perto. Curiosamente, mesmo assim sempre foi considerado um dos melhores oradores da política de Porto Seguro, alguém que se alimenta do debate público há décadas, seja no rádio, seja nas redes sociais.
Hoje a imagem parece diferente.
Mesmo estando cerca de vinte e seis anos mais velho desde que deixou a prefeitura, Ubaldino aparenta uma energia renovada. Mais magro, disciplinado com exercícios, com uma rotina saudável e um bom humor que tem chamado atenção de quem o encontra.
Há quem diga que um novo momento pessoal, inclusive um amor recente, também faz parte desse rejuvenescimento que muitos observam.
O fato é que o político parece mais leve.
Mais acessível também. Responde às pessoas, interage nas redes sociais, conversa com cidadãos comuns e mantém uma tradição que atravessa mais de trinta anos: a comemoração de seu aniversário com o povo no Baianão, hoje o maior centro comercial popular de Porto Seguro. Um bairro que carrega, inclusive, a marca de um projeto urbano ligado à sua família e ao legado político de seu pai.
Esse tipo de vínculo não se constrói artificialmente.
Outro elemento que mantém seu nome vivo no tabuleiro político é a influência eleitoral. Nos últimos vinte anos, praticamente todos os candidatos que Ubaldino lançou ou apoiou tiveram votações expressivas. Nenhum deles recebeu menos de vinte mil votos e todos terminaram as disputas em segundo lugar.
Na eleição mais recente, ele preferiu se manter isento.
Um gesto que muitos interpretaram como estratégia, observação e amadurecimento político. Agora começa a surgir uma possibilidade que, até pouco tempo atrás, parecia improvável: o retorno de Ubaldino Júnior ao centro da política municipal.
E esse retorno não viria isolado.
Nos bastidores, fala se em uma aproximação política com o atual prefeito Jânio Natal e com o projeto político que envolve seu filho, Jânio Natal Júnior, pré candidato a deputado estadual. Uma aliança que poderia representar continuidade administrativa, experiência política e uma reorganização do campo político local.
Para muitos observadores, essa movimentação poderia consolidar uma nova fase política na cidade. Também marcaria o encerramento simbólico de um ciclo iniciado anos atrás, quando Cláudia Oliveira dominou a política municipal por dois mandatos e chegou a derrotar Jânio Natal na eleição de 2012, naquela disputa em que Lúcio Pinto ficou em segundo lugar.
A política, porém, costuma dar voltas.
Duas eleições seguintes, Jânio Natal devolveu o resultado nas urnas com larga vantagem, superando Cláudia por mais de vinte mil votos e encerrando uma das disputas mais marcantes da história recente da cidade. Incrivelmente Ubaldino foi o único que especulou esse resultado com larga vantagem de votos de Jânio contra Cláudia, o que demonstra a vasta experiências de análises políticas que ele possui.
Agora o cenário parece se reorganizar novamente.
E nesse novo arranjo, o nome de Ubaldino Júnior volta a circular não como lembrança do passado, mas como possibilidade de futuro. Talvez o maior sinal dessa mudança esteja no próprio comportamento dele. Hoje fala menos como quem quer provar algo e mais como quem já viveu o suficiente para compreender a complexidade da política. Se decidir voltar a disputar a prefeitura, Ubaldino não voltaria como o mesmo personagem de décadas atrás. Voltaria mais experiente. Mais estratégico. E, curiosamente, mais leve.
A cidade que conheceu Ubaldino Júnior como um jovem líder político talvez esteja diante de uma versão mais madura daquele mesmo personagem.
Na política, às vezes, o tempo não apenas passa.
Ele lapida.
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