O paralelo histórico é inevitável. Nos anos de chumbo, Caetano, Chico e Gil foram símbolos culturais contra o regime militar. Não empunharam armas, mas defenderam — ou ao menos simpatizaram — com grupos armados de esquerda, como ALN e MR-8, que praticaram sequestros, assaltos e assassinatos. A anistia de 1979, ampla, geral e irrestrita, perdoou tanto militares acusados de abusos quanto guerrilheiros acusados de crimes. Foi um pacto político para virar a página. Esses mesmos artistas, beneficiados por ela, puderam voltar ao Brasil e seguir carreira.
Roma já fazia assim: pão e circo para distrair o povo. Hoje, no Rio, o Coliseu foi trocado pelo trio elétrico. Gil, Caetano e Chico subiram ao palco — a notícia chamou de “protesto”, mas todos viram: era show. Não houve manifestação coletiva contra a anistia, e sim música, aplausos e espetáculo. A multidão foi pelo som, não pela causa. No roteiro, a incoerência: artistas que já foram anistiados, sustentados pela Lei Rouanet, agora posam de tribunos.
Corta para 8 de janeiro de 2023. O país assistiu à depredação de prédios públicos em Brasília. Grave, sim, mas sem sequestros ou execuções — nada comparável ao que se via nos anos 60 e 70. E há um ponto incômodo, constantemente silenciado: existem vídeos e denúncias de pessoas que estavam presentes relatando infiltrações, apontando que parte das invasões e destruições teria sido feita por esses infiltrados. Pasmem: há imagens de manifestantes comuns reclamando dos atos de vandalismo. Soma-se a isso o episódio de um homem ligado ao PT que aparece abrindo portas, oferecendo água e facilitando a entrada de manifestantes, fato amplamente registrado em vídeos, mas completamente ignorado pelo discurso oficial.
E a incoerência não para aí. O mesmo governo que autorizou R$ 34,4 bilhões para a Lei Rouanet em apenas dois anos — beneficiando justamente o meio cultural onde esses artistas orbitam — viu seus aliados de palco cruzarem o Brasil em shows contra a anistia. Mas onde estavam esses mesmos nomes quando veio à tona a fraude bilionária de R$ 6,3 bilhões no INSS? O silêncio seletivo revela que não se trata de coerência moral, mas de conveniência política: protestar onde rende manchete, calar onde expõe contradição.
Eis a ironia histórica: quem defendeu anistia para grupos violentos hoje se levanta contra a ideia de anistia para manifestantes que não cometeram crimes de sangue. Se a anistia de 1979 serviu para reconciliar o país, negar a mesma lógica agora é usar a memória como arma política.
O palco vira cortina de fumaça. O povo dança, a mídia narra, a política agradece. Pão e circo continuam vivos — só mudaram a trilha sonora.
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