O PORTAL DA BAHIA

Coluna/Opinião

O PESO INSUPORTÁVEL DA 10

A ORFANDADE DA SELEÇÃO E A CAMISA QUE TINHA DONO

O PESO INSUPORTÁVEL DA 10
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

A DERROTA PARA A FRANÇA ESCANCARA O ABSURDO DE ENTREGAR O MANTO SAGRADO A UM JOGADOR MIDIÁTICO, EXCLUINDO NEYMAR POR PURA VAIDADE DE UM TÉCNICO INCAPAZ DE MONTAR UM TIME DE QUALIDADE.

Assistir ao Brasil perder por 2 a 1 para a França logo no primeiro amistoso, e o pior, sem esboçar qualquer tipo de reação, é um choque de realidade duro de engolir. A apatia em campo escancara uma ferida profunda que vai muito além de um placar adverso: a nossa Seleção perdeu a sua principal marca registrada. A camisa 10 do Brasil foi humilhada. É um insulto ao futebol ver o peso dessa camisa ser entregue a quem não aguenta a pressão de um clássico. Para entender a dor dessa derrota e o buraco em que nos metemos, é preciso olhar para a história e para a mística do que significa vestir esse manto.

A DINASTIA DOS GÊNIOS

A camisa 10 do Brasil não é apenas um pedaço de tecido; é um manto sagrado que carrega a expectativa de uma nação inteira. Passamos décadas mal acostumados vendo lendas transformarem o impossível em rotina:

● Pelé: O criador do mito. Antes dele, o 10 era apenas um número distribuído ao acaso na Copa de 1958. Depois de Edson Arantes do Nascimento, transformou-se no símbolo universal máximo de realeza, genialidade e liderança absoluta. Ele não apenas imortalizou a camisa; ele inventou o peso gigantesco que ela carrega até hoje.

● Zico: O maestro que ditava o ritmo do futebol com uma elegância e inteligência tática inigualáveis.

● Rivaldo: Foi a frieza e a precisão letal. Quando o time travava, a bola ia para os seus pés para que a história do jogo fosse reescrita em um lance de genialidade.

● Ronaldinho Gaúcho: O gênio e a pura magia. Quando o time travava, a bola ia para os seus pés para que a história do jogo fosse reescrita em um lance de gênio e magia pura.

● Rivelino (A Patada Atômica): Ele teve a missão quase impossível de ser o primeiro jogador a herdar a camisa 10 em uma Copa do Mundo (1974) logo após a aposentadoria de Pelé. Com seu bigode inconfundível, o drible do "elástico" e uma perna esquerda que parecia um canhão, Rivelino aguentou a pressão e honrou o peso do número.

● Raí (O Maestro Elegante): Vestiu a 10 e a braçadeira de capitão no início da Copa de 1994. Embora tenha perdido a titularidade durante o torneio por questões táticas, Raí sempre foi a personificação do camisa 10 clássico, cerebral e imponente.

● Kaká: O último brasileiro eleito o melhor do mundo, que rasgava defesas com passadas largas e assumia a responsabilidade de decidir.

Esses nomes não apenas vestiam a 10; eles eram a 10. Tinham a visão de jogo de um orquestrador e a frieza de um carrasco.

O FARDO QUE SÓ NEYMAR SOUBE CARREGAR

E é exatamente aqui que precisamos destacar o nome de quem assumiu essa herança pesadíssima. Muito se fala sobre a ausência de uma Copa do Mundo, mas a verdade precisa ser dita: a camisa 10 era do Neymar. Tinha que ser do Neymar.

O que ele fez nas Olimpíadas do Rio em 2016 foi um marco histórico que nem Pelé, Zico, Rivaldo, Ronaldinho ou Kaká conseguiram alcançar: o inédito Ouro Olímpico. Aquele era o título que faltava na nossa galeria. Foi uma conquista tão histórica e com um peso tão absurdo, coroada exatamente contra a Alemanha, apenas dois anos após a humilhação do 7x1 — que Neymar fez questão de eternizar o feito com uma tatuagem da Rio 2016. O cenário daquela conquista engrandece ainda mais o feito.

Quando Neymar chamou a responsabilidade no Maracanã, ele não tinha o "escudo" de lendas ao redor dele. Não havia Cafu ou Roberto Carlos para dividir a pressão. Era ele, como o grande veterano, liderando uma geração de garotos sob a desconfiança de um país que ainda sangrava pelo trauma do 7x1. Neymar foi cobrado de forma impiedosa. E o que ele fez? Bateu no peito. Fez um gol de falta antológico na final contra a Alemanha e, no pênalti decisivo, teve o sangue frio que separa os bons jogadores dos gênios. Ali, ele provou que sabia carregar a "bigorna" que é a camisa 10 do Brasil.

O PARADOXO VINI JR. E O JOGADOR MIDIÁTICO

O contraste dessa história com o vexame contra a França é o que mais dói. Vini Jr. é um talento global no Real Madrid, mas a camisa 10 exige uma cadência e uma centralização de jogo que não fazem parte da natureza dele. Vini corre muito e entrega nada quando o Brasil precisa de um líder de verdade no meio-campo. Ele é um ponta explosivo, não um maestro.

Mais do que isso, a dura verdade é que, vestindo a Amarelinha, Vini Jr. tem se mostrado muito mais um jogador midiático do que um craque confirmado para a história do futebol brasileiro. Para muita gente, o peso do seu nome fora de campo hoje se resume ao fato de ser o atual namorado da influenciadora Virgínia, atraindo holofotes de celebridade que ainda não se justificaram com a bola rolando pela Seleção. Entregar a ele a camisa 10 é um erro que sufoca suas melhores características e deixa o Brasil sem cérebro. O resultado é o que vimos contra os franceses: um time que vira uma equipe comum, incapaz de ditar o ritmo ou demonstrar qualquer clarividência.

A VAIDADE NO BANCO DE RESERVAS E O FUNDO DO POÇO

A culpa desse cenário desolador, no entanto, não é apenas de quem está em campo, mas principalmente de quem comanda de fora. Excluir de forma sumária um talento absurdo como Neymar mostra muito mais a vaidade de um técnico de Seleção Brasileira do que a capacidade de montar um time de qualidade.

Não adianta ter um treinador que escolhe o elenco baseado no próprio ego. Colocar a camisa 10 nas costas de uma pessoa que ainda não criou nenhum tipo de história pela Seleção, ignorando quem já tem história e conquistas pesadas pelo Brasil, é um erro crasso e um desrespeito à nossa tradição. Esse primeiro amistoso perdido de 2 a 1 sem reação é a fatura chegando.
A realidade é dura: a Seleção Brasileira está órfã e mal comandada. Ver o Brasil ser derrotado com tamanha facilidade é o fundo do poço para quem já teve os melhores do mundo. A maior decadência da história do nosso futebol é olhar para o campo e perceber que a camisa 10 clama por quem realmente a entende. A camisa 10 era do Neymar, e a falta que ele faz mostra que, no fundo, ela nunca deveria ter saído das costas dele.

Comentários:

Veja também

Crie sua conta e confira as vantagens do Portal

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!