O PORTAL DA BAHIA

Coluna/Opinião

BAIANADA: A PALAVRA QUE USAM PARA DIMINUIR, MAS QUE NASCEU PARA GIGANTEAR

ENTRE O PRECONCEITO DISFARÇADO DE PIADA E A IDENTIDADE DE UM POVO QUE É A VERDADEIRA MATRIZ, O CÉREBRO E A ENGRENAGEM DO BRASIL

BAIANADA: A PALAVRA QUE USAM PARA DIMINUIR, MAS QUE NASCEU PARA GIGANTEAR
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É preciso mesmo escrever um artigo longo, denso e detalhado para rebater o termo “baianada”? Eu nunca achei que precisaria. Mas precisei viver algumas situações para entender que não se trata apenas de uma palavra solta. É um rótulo. E o que é pior: um rótulo carregado de preconceito histórico, frequentemente disfarçado de brincadeira, usado para desqualificar a nossa essência e o nosso talento.

Eu sou baiano. De nascença, sou de Salvador. Mas, por escolha, vivência e coração, sou cidadão de Porto Seguro e me sinto filho também de Santa Cruz Cabrália, tendo moradia nas duas cidades e empresas também. É justamente por viver na pele essa pluralidade que eu sei que o preconceito não escolhe hora, classe social, nem lugar para aparecer.

AS HISTÓRIAS QUE EXPLICAM O RÓTULO

Certa vez, recebi um casal de amigos, hoteleiros de outro estado, que vieram conhecer os encantos de Porto Seguro. Conseguimos um passeio de cortesia com uma empresa local para levá-los a Arraial d'Ajuda. Naquela época, não existia a lei de padronização rigorosa das vans como temos hoje. No dia do passeio, eu fui acompanhá-los. O ar-condicionado do veículo apresentou defeito. O motorista, com toda a humildade e o profissionalismo do mundo, virou-se para nós e disse: "Peço desculpas a vocês, mas vou precisar trocar de van para garantir o melhor conforto". Era uma atitude de absoluto respeito ao cliente. Mas o que eu ouvi do meu amigo hoteleiro, que vinha de fora, foi um soco no estômago: "Deu baianada mesmo". Ali ficou claro para mim: a crítica dele não era sobre o defeito mecânico de uma máquina. Era sobre a nossa origem.

Outro dia, o absurdo aconteceu no trânsito. Um motorista parou o carro de forma brusca, de vez, no meio de uma rua movimentada aqui em Porto Seguro. O resultado foi inevitável: um engavetamento de três carros. O meu era o último, graças a Deus, com danos mínimos. O causador do acidente, um turista gaúcho, sem sequer olhar para trás ou assumir a própria imprudência por ter freado do nada, desceu do carro gritando a plenos pulmões: " É coisa de baianada mesmo!". Ele errou, mas a culpa precisava ter um sotaque e desrespeito pela terra que o acolheu pra curtir as férias.

Eu vi isso acontecer até com as minhas próprias conquistas. Quando comprei minha primeira moto, um modelo simples, mottu, eu sou alto, tenho 1.93 metros de altura e ela é pequena pra minha estatura, por isso quis dar uma valorizada no veículo de duas rodas. Mexi na estética para elevar a minha própria autoestima, afinal, eu estava aprendendo a pilotar e queria ter orgulho da motinha. Pintei a suspensão dianteira de dourado, ergui um pouco a traseira, mexi no amortecedor e melhorei a iluminação. Uma customização simples e de muito bom gosto, pelo menos é o que comentam os outros donos de mottu. A reação de um colega da faculdade de direito, que passei a estudar após completar 40 anos, foi zuar dizendo que era "baianada" enquanto os demais colegas elogiavam as personalizações falando que a motocicleta tinha ficado melhor e mais bonita que a original.

É o mesmo tom pejorativo que usam quando veem os carros antigos customizados ao estilo Velozes e Furiosos. Tem gente que ama, tem gente que prefere o clássico, eu mesmo sou um grande fã dos modelos clássicos, mas acho genial quando os caras adaptam, não deixam brega, colocam aquela iluminação embaixo e dentro do carro, instalam suspensões melhores, gerando estilo e maior conforto, como a tradicional Ranger Raptor com rodões dos EUA, que só agora chegaram modelos similares no Brasil. E sempre aparece um crítico, muitas vezes alguém que não tem nem bicicleta, para apontar o dedo e dizer a palavra mágica do preconceito: BAIANADA.

O BAIANO NÃO FAZ FORÇA. ELE ACONTECE.

Eles usam essa palavra para nos diminuir porque não conhecem a nossa força. O baiano de verdade é aquele que aparece, se destaca e constrói impérios naturalmente, sem precisar fazer força para isso.

Eu sou a prova viva disso. Cheguei em Porto Seguro recém-formado em jornalismo, carregando apenas uma câmera fotográfica, um computador e uma mochila nas costas, com o sonho de abrir uma pequena produtora de vídeo. Hoje, sou empresário e possuo uma rede de hotéis. Fui eleito presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Porto Seguro, mantive meu mandato com excelência e escolhi não fazer reeleição por vontade própria. Depois, fui convidado para atuar como Diretor Estadual da ABIH-Bahia, representando a força dos hoteleiros do nosso estado.

Recebi o cobiçado Título de Cidadão de Porto Seguro como reconhecimento de muito trabalho prestado. Fui um dos que mais lutaram pela reabertura do comércio durante a pandemia, sendo colaborador e um dos idealizadores do plano de ação de reabertura da cidade. Já fui convidado para assumir a cadeira de Secretário Municipal, tanto em Porto Seguro quanto em Cabrália. E recusei. Porque prefiro não me envolver diretamente na política. Prefiro ser um colaborador da sociedade. É isso que o baiano ativo faz: ele se doa, ele aparece naturalmente, ele engrandece o lugar onde pisa.

A BAHIA QUE SANGROU PARA O BRASIL SER LIVRE

Senta aqui, leia com atenção e entenda o peso desta terra. Tem gente que acha que a Bahia só exporta festa e Carnaval. Mas a verdadeira independência do Brasil não se garantiu com um grito diplomático às margens do Ipiranga. Ela foi forjada a sangue, fogo e coragem nas águas e nas ruas da Bahia, no glorioso 2 de Julho.

E quem garantiu que o Brasil fosse livre? Foram mulheres gigantescas e heróis de fibra. Maria Felipa, a verdadeira heroína negra, uma marisqueira genial que liderou mulheres para atacar e queimar os navios portugueses, garantindo a nossa independência real. Tivemos Maria Quitéria, a mulher de coragem inabalável que se vestiu de homem para lutar como soldado nos campos de batalha. Tivemos Joana Angélica, a mártir e freira que deu a vida barrando as tropas lusitanas. E não podemos esquecer de Cipriano Barata, o médico e jornalista que foi a voz implacável contra a opressão. A Bahia é a fundação de ferro da nação brasileira.

Na política, daqui saiu a força inegável do Senador Antônio Carlos Magalhães (ACM), um homem de tamanho poder e articulação que chegou a assumir a presidência da república interinamente. Daqui saiu o registro de nascimento de Itamar Franco, que também comandou esta nação em tempos cruciais e foi o presidente responsável por estruturar o Plano Real.

A FÁBRICA DE MENTES: A CIÊNCIA, A ANTROPOLOGIA E O DIREITO

A Bahia produz uma linhagem de gênios que o Brasil muitas vezes esquece de agradecer. Nós exportamos Elsimar Coutinho, brilhante médico, cientista e professor baiano, referência mundial em reprodução humana, peça-chave na revolução e evolução da pílula anticoncepcional, um baiano que deu autonomia ao corpo da mulher no mundo inteiro. Exportamos Sérgio Henrique Ferreira, cuja genial descoberta científica foi a base para a criação do captopril, remédio contra hipertensão que salva milhões de vidas globalmente todos os dias. Tivemos Juliano Moreira, que revolucionou e humanizou a psiquiatria no Brasil, combatendo o racismo na medicina. Roberto Santos, referência em saúde pública, e Edgard Santos, o visionário fundador da UFBA moderna.

Quando você pensar em inteligência pura, lembre-se de Milton Santos, consagrado como um dos maiores intelectuais, pensadores e geógrafos do mundo, cujas teorias são estudadas em universidades do planeta inteiro. Na educação, revolucionamos o sistema com Anísio Teixeira, o homem que criou e implementou o conceito da escola pública moderna no Brasil.

Tivemos os pioneiros que mergulharam fundo para explicar a formação da nossa sociedade: Nina Rodrigues (pioneiro na medicina legal e nos estudos da cultura afro-brasileira), Thales de Azevedo (antropólogo e sociólogo que explicou ao mundo a nossa miscigenação e a estrutura social), Afrânio Peixoto (brilhante médico, crítico e romancista que chegou a ocupar a cadeira de Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras), Edison Carneiro (etnólogo, folclorista e feroz defensor do reconhecimento das religiões afro-brasileiras) e Arthur Ramos (psiquiatra e antropólogo monumental que levou o peso dos estudos da nossa cultura negra para dentro da UNESCO).

No Direito e na diplomacia, o maior cérebro que este país já viu: Ruy Barbosa. Ele foi imortalizado como a "Águia de Haia" porque, em 1907, representando o Brasil na Segunda Conferência da Paz em Haia, defendeu o princípio da igualdade jurídica entre as nações com discursos tão brilhantes, profundos e avassaladores que deixou as maiores potências mundiais estarrecidas.

Tivemos mentes brilhantes do judiciário e da história, como Aliomar Baleeiro (jurista genial de inteligência ímpar que chegou a presidir o Supremo Tribunal Federal) e Pedro Calmon (historiador de peso absoluto e ministro que literalmente escreveu as obras definitivas que formam a História do Brasil). Tivemos Orlando Gomes, a referência máxima e irretocável no Direito Civil, autor dos livros que formam todos os advogados deste país.

Na engenharia e urbanismo, desenhamos o Brasil com Teodoro Sampaio (engenheiro, geógrafo e intelectual negro que desbravou e mapeou vastas áreas do território nacional), Mário Leal Ferreira (o engenheiro e urbanista visionário responsável pelo planejamento moderno da cidade de Salvador) e Miguel Calmon (engenheiro e ministro de grande relevância). E, na luta implacável pela abolição, entregamos o gigante Luís Gama, que libertou centenas de escravizados usando brilhantemente as leis de um país escravocrata.

A ENGENHARIA INDUSTRIAL E O PIONEIRISMO NO PETRÓLEO BRASILEIRO

Se você tirar a Bahia do mapa, não falta só cultura. Falta o Brasil funcionar. A Bahia tem uma força industrial esmagadora. Fomos durante anos um dos maiores polos automotivos com a imensa fábrica da Ford em Camaçari, de onde saíram veículos que rodaram o Brasil inteiro, como o Ford Ka e o EcoSport. E quando acharam que o polo ia parar, a Bahia se reinventou para o futuro: as mesmas instalações grandiosas agora abrigam a BYD, a gigante multinacional de tecnologia que transformará a Bahia no coração da produção de veículos elétricos e sustentáveis de todo o Brasil.

Temos o poderoso Polo Petroquímico de Camaçari e a imensa Refinaria Landulpho Alves e aqui é obrigatório abrir a história para explicar o peso colossal desse nome. Landulpho Alves, nascido na Bahia em 1892, foi advogado, político brilhante, governador do nosso estado e Ministro da Agricultura no governo de Getúlio Vargas. Ele foi um dos maiores e mais ferrenhos defensores da criação de uma indústria nacional de petróleo e do nosso desenvolvimento econômico. Não é à toa que a refinaria que leva o seu nome, inaugurada em 1950 em Mataripe, na Bahia, foi simplesmente a primeira refinaria de petróleo do Brasil.

Muito antes da fundação da Petrobras (que só viria em 1953), a Bahia e o nacionalismo estratégico de Landulpho já encabeçavam o movimento para reduzir a dependência externa do país, criando nossa base industrial e fortalecendo a nossa soberania energética. A Bahia ensinou o Brasil a refinar o seu próprio petróleo e, até hoje, essa mesma refinaria sustenta a indústria nacional de químicos, plásticos, fertilizantes e combustíveis. Hoje, somos também a potência de energia limpa da nação, movendo o Brasil com nossos gigantescos Parques Eólicos.

A ESSÊNCIA E O SABOR QUE DOMINAM AS PRATELEIRAS DO BRASIL

​Nossas terras não entregam apenas matéria-prima bruta; entregam luxo, sofisticação e excelência pura. A Bahia é a origem histórica e atual de um dos melhores cacaus do mundo. O fruto que fez a glória do sul do estado hoje é transformado aqui mesmo, gerando chocolates premium conhecidos e premiados globalmente. Marcas grandiosas e respeitadas como a AMMA Chocolate e a tradicional Chocolates Caseiros Bahia não vendem apenas doce, elas exportam a mais alta qualidade do cacau brasileiro para o paladar dos mais exigentes críticos do planeta.

​E se você acha que a nossa força de mercado para por aí, olhe para a área de fragrâncias, cosméticos e bem-estar. Empresas nascidas da nossa raiz e carregando a essência puramente nordestina dominaram o país. A Avatim, com seus aromas de luxo que capturam a alma da nossa natureza, e a Mahogany, outra gigante absoluta do setor de cosméticos, dominam as prateleiras, os lares e os shoppings de todo o mercado nacional. Elas entregam excelência absoluta, provando que o que a Bahia produz, refina e engarrafa concorre de igual para igual com qualquer marca internacional.

A LITERATURA, O CINEMA E O ESPORTE DE ALTO CALIBRE

Baianada é ter Jorge Amado, o escritor mais traduzido do país, cujas obras são tão colossais, vivas e sedutoras que pararam o Brasil ao virarem novelas e filmes amados no mundo inteiro, como Tieta do Agreste, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos. É a genialidade poética, ácida e cortante de Gregório de Matos (o Boca do Inferno) e a literatura riquíssima e premiada de João Ubaldo Ribeiro. A Bahia é Castro Alves. Ele não é apenas uma estátua ou o nome de uma praça por onde passam os trios. Ele é o Poeta dos Escravos, o dono do grito lírico mais poderoso por abolição e liberdade que a literatura brasileira já presenciou.

No cinema, temos Glauber Rocha, o revolucionário pai do Cinema Novo, cuja frase "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" mudou a linguagem cinematográfica mundial. Temos dramaturgos e atores do mais alto calibre internacional, como Lázaro Ramos (um dos maiores talentos cênicos, escritores e diretores contemporâneos, que entrega a alma em cada atuação) e Wagner Moura (um monstro da atuação que dominou o cinema nacional com Capitão Nascimento, chegou a Hollywood, foi indicado ao cobiçado Globo de Ouro por sua atuação brilhante e assustadoramente real como Pablo Escobar na série Narcos, e que, coroando sua genialidade, ganhou o Globo de Ouro este ano de Melhor Ator com o impactante filme O Agente Secreto).

No esporte? Não exportamos apenas jogadores, exportamos lendas e campeões mundiais que trouxeram estrelas para a camisa da seleção. O talento nato, veloz e mágico de Bebeto, Dida, Anderson Talisca e Daniel Alves, somado a gigantes que fizeram a história das Copas do Mundo, como o folclórico e irreverente volante Vampeta, o liso e genial atacante Edílson Capetinha, a elegância absoluta do zagueiro Aldair e a força intransponível do xerife Júnior Baiano.

A INVENÇÃO MONUMENTAL DA GUITARRA BAIANA E DO TRIO ELÉTRICO

Para que não fique nenhuma dúvida na história: a Guitarra Baiana foi a primeira guitarra elétrica de corpo maciço do mundo! Criada na década de 1940 pelo gênio Dodô (o "pau elétrico"), antes mesmo do instrumento dominar o rock americano. E preste muita atenção: a guitarra baiana não deu origem ao trio elétrico isoladamente; o fato é muito mais espetacular: ela fez parte da origem intrínseca do Trio Elétrico. A invenção completa aconteceu quando Dodô e Osmar pegaram uma velha fobica (um calhambeque Ford 1929), equiparam com um sistema rudimentar mas genial de som, e subiram para tocar seus instrumentos elétricos, descendo as ladeiras de Salvador. Depois, com a chegada do músico Temístocles Aragão, formou-se de fato o "trio" de músicos tocando em cima de um carro. Essa é a verdadeira origem do Trio Elétrico, uma invenção de engenharia e música puramente baiana, que mais tarde seria eternizada pelos solos e acordes absurdamente rápidos e geniais do mestre Armandinho Macêdo.

A MATRIZ QUE ENSINOU O BRASIL A CANTAR

Achar que baianada é xingamento é atestar a própria ignorância sobre a música. O autêntico Samba não nasceu no Rio de Janeiro e nem nos morros cariocas. O verdadeiro Samba nasceu do Samba de Roda aqui na Bahia. Nasceu das mãos calejadas das lavadeiras e das mulheres do Recôncavo Baiano, com os cantos africanos e os lamentos entoados em coro ritmado e regional, acompanhados de palmas e viola. Essa raiz bruta subiu o mapa, foi lapidada nos terreiros do Rio de Janeiro e hoje é harmonizada e conhecida pelo Brasil como o pagode carioca e o partido alto. Nós somos a matriz absoluta.

A Bossa Nova, o movimento que colocou o Brasil na vitrine musical da alta sociedade do planeta, nasceu da batida revolucionária, sincopada e inconfundível do violão do baiano João Gilberto. Vinicius de Moraes (carioca) apaixonou-se pela Bahia porque entendeu que aqui mora a alma profunda do Brasil. Temos o patriarca Dorival Caymmi, que com seu violão ditou o ritmo das marés e cantou o clássico imortal Baixa do Sapateiro, eternizando o refrão que o Brasil inteiro chora cantando: "Bahia que não me sai do pensamento".

Temos os gênios da MPB e da Tropicália: Caetano Veloso e Gilberto Gil, intelectuais musicais que revolucionaram a arte, fundaram movimentos, desafiaram a ditadura e misturaram nossa raiz com a guitarra elétrica e o pop global. A eterna Gal Costa, dona da voz de cristal, absoluta e insubstituível musa da contracultura. Maria Bethânia, a rainha dramática que pisa descalça no palco e transforma toda música e poema em uma oração potente. O genial Tom Zé, o maestro experimental que desconstrói ritmos como ninguém. E Margareth Menezes, a voz estrondosa e guerreira do afro-pop, cujo peso cultural a levou a ser Ministra da Cultura.

E para quem acha que a Bahia é feita apenas de tambores, samba, arrocha e axé, nós temos simplesmente o pai absoluto do rock brasileiro. O gigante Raul Seixas, o nosso eterno filósofo, místico e Maluco Beleza. Raulzito não apenas cantou rock; ele pegou a rebeldia da guitarra elétrica e fundiu magistralmente com o baião nordestino, criando uma identidade sonora única que o Brasil nunca tinha ouvido. Ele compôs letras que são verdadeiros hinos atemporais de liberdade, questionamento e genialidade, fundando a lendária Sociedade Alternativa. Seu legado é tão imortal, tão sagrado e tão enraizado na cultura do país, que não importa a década, não importa a cidade: em absolutamente qualquer show de rock neste país, a multidão sempre vai gritar a plenos pulmões a mesma exigência: "Toca Raul!"

Temos a nossa roqueira Pitty, que levou o peso, a atitude visceral e as letras densas da Bahia para o topo das paradas nacionais. E a genialidade irreverente do saudoso Dinho, vocalista dos Mamonas Assassinas, um baiano de Irecê que com seu humor anárquico fez o Brasil inteiro rir e pular junto.

MAS FALANDO DO AXÉ, O ARROCHA E A INDÚSTRIA DO RITMO

A realeza do Axé Music e do Pop: Luiz Caldas, o gênio multi-instrumentista que inventou o Axé Music e formatou o Carnaval moderno misturando frevo, reggae, merengue e ritmos afro, mudando a estética da festa. O furacão Daniela Mercury, a pioneira que pegou essa cultura de rua, subiu num trio e a exportou para o planeta inteiro com sua performance avassaladora e percussiva. O gigante Moraes Moreira, que fez história ao quebrar o padrão instrumental e se consagrar como o primeiro cantor a soltar a voz em cima de um trio elétrico, eternizando a folia com versos que o povo canta até hoje.

Temos a maior show-woman do Brasil, a inesgotável Ivete Sangalo. Temos Bell Marques, o eterno dono das ruas, o cara da bandana que criou uma legião de "chicleteiros" apaixonados com o Chiclete com Banana. Temos Netinho, que botou o país inteiro pra pular com o hino Milla. As irmãs Simone e Simaria, que levaram nosso tempero, o nosso sotaque e a nossa força vocal para dominar o mercado do sertanejo nacional. Durval Lelys, o rei da irreverência e inventor de coreografias no Asa de Águia. Saulo, a poesia e a doçura em forma de Axé. Os hitmakers incansáveis da Banda Eva e do Jammil. E o swing imbatível e a malemolência de Xanddy do Harmonia, que roda o mundo provando que, na Bahia, nós temos "A Melhor Segunda-Feira do Mundo".

Até quando tentam diminuir nossos ritmos contemporâneos, o mundo engole e lucra. O Arrocha e o Piseiro nasceram aqui. O arrocha foi criado pelo genial Pablo, lá nos tempos do grupo Asas Livres, usando teclados e a voz rasgada. No começo, foi discriminado e chamado pejorativamente de "baianada", restrito às periferias. E hoje? Hoje o sertanejo universitário inteiro, os grandes astros do pop e o funk faturam milhões readaptando exatamente a batida rítmica, o hit e a sofrência que o Pablo inventou.

A FORÇA AFRO, O MELHOR CARNAVAL E O ACOLHIMENTO

Temos a força afro-baiana que ensinou o Brasil a ter orgulho de suas raízes negras: a capoeira imbatível e letal de Mestre Bimba (criador da Luta Regional Baiana) e a tradição profunda de Mestre Pastinha (guardião e filósofo da Capoeira Angola). A percussão pesada e a revolução social e racial do Ilê Aiyê (o mais belo bloco afro, que resgatou a estética negra). O Olodum, cujos tambores fizeram Michael Jackson e o mundo inteiro olharem maravilhados para o Pelourinho. O tapete branco da paz dos Filhos de Gandhy. O Malê Debalê, consagrado como o maior balé afro do mundo. A pintura corporal rítmica e a energia tribal da Timbalada. E a genialidade do cacique Carlinhos Brown — um mestre rítmico tão imenso e global que não só participou de projetos estrangeiros como chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Canção Original pela esplêndida trilha sonora da animação de Hollywood Rio.

Tudo isso culmina na maior festa da Terra: nós temos, inquestionavelmente, o Melhor Carnaval do Mundo em Salvador. Porque não é só uma festa. É a maior manifestação popular de rua do planeta, uma explosão democrática sem cordas onde milhões de pessoas seguem o trio elétrico, transformando ruas e avenidas na verdadeira capital mundial da alegria.

Nós temos os paraísos absolutos: Porto Seguro, Salvador, Ilhéus, Comandatuba, Corumbau, Belmonte, Trancoso, Caraíva, e os deslumbrantes Morro de São Paulo, Boipeba, Ilha Grande, Ilha de Maré, Barra Grande, Ilha de Itaparica, Itacaré e tantos outros paraísos exclusivos. Juntos, formamos um dos maiores polos turísticos e hoteleiros da América Latina.

A energia é tão brutal que a Bahia abraça e naturaliza quem entende a nossa alma. A estrela paraibana Elba Ramalho fincou raízes, tem sua casa e vive plenamente a nossa cultura em Trancoso. O ator Vladimir Brichta e a cantora Claudia Leitte (ambos cariocas de nascimento) são majestades absolutas e naturalizadas baianas, por puro pertencimento e sotaque de alma. E os mestres forasteiros Pierre Verger (o francês que uniu África e Bahia na fotografia) e Carybé (o artista plástico argentino) escolheram deixar suas pátrias para ter e pintar a alma da Bahia de forma definitiva.

Aqui é o lugar do acarajé original (o nosso hambúrguer histórico, muito maior, mais ancestral e mais rico que o americano), do vatapá, da cocada, do caruru, do xinxim de galinha e da verdadeira moqueca, porque fique muito claro: se não tiver dendê de verdade, é apenas uma peixada sem alma.

E temos o nosso riquíssimo vocabulário, o "baianês". Onde a mãe é carinhosamente chamada de "mainha", e o pai vira "painho". Onde a gente chama o outro com o chamego de "oh coisinha", e solta um divertido "sua inigrinha" no meio de uma resenha e de uma gargalhada espontânea. Onde você entra num lugar para comprar algo e o vendedor já te chama de "meu filho" antes mesmo de você abrir a carteira. Isso não é falta de vocabulário formal. O nome disso é acolhimento sincero.

E a nossa religiosidade é sagrada, respeitosa e gigante. Aqui, valorizamos todas as matrizes divinas com reverência. O Candomblé de matriz africana, com seus atabaques e orixás que ditam e protegem a nossa cultura formadora; a profunda espiritualidade dos guias da Umbanda; as Igrejas Evangélicas entoando seus louvores riquíssimos e fortes em cada bairro; a fé inabalável no Senhor do Bonfim, no alto da sua colina sagrada lavada de água de cheiro e esperança; a tradição centenária da Igreja Católica em nossas basílicas históricas banhadas a ouro, abençoada ao ponto de termos até uma santa baiana, a nossa amada Irmã Dulce (Santa Dulce dos Pobres), que foi canonizada pela Igreja Católica por sua vida inteira dedicada à mais pura caridade; e o amor vivo e dedicado do Espiritismo. Na Bahia, tudo isso convive na mesma terra, muitas vezes na mesma rua e dentro da mesma família. Porque o baiano aprende desde o berço uma verdade universal e insuperável: a fé não divide, a fé soma.

ANOTEM A VERDADE FINAL

Com base em toda essa enormidade histórica, cultural, intelectual e industrial que foi descrita, como alguém ainda tem a audácia, a arrogância e a limitação de usar a palavra “baianada” como uma crítica pejorativa?

Se for para usar o termo, use com reverência. Baianada é potência. É a música que vira movimento global, é o ritmo que dita o mercado fonográfico, é a literatura que traduz a alma humana, é a ciência médica que salva o mundo, é a indústria forte que move o país e a engenharia que cria instrumentos únicos. Se o Brasil tivesse que se explicar para o planeta lá fora em momentos de genialidade e brilho, ele obrigatoriamente teria que falar com forte sotaque baiano.

Se o nosso brilho, a nossa criatividade inesgotável, a nossa inteligência afiada e o nosso suingue natural incomodam, o problema definitivamente não é nosso. É a triste limitação de quem nunca entendeu o que é nascer original.

Baianada não é erro. É aquilo que o mundo inteiro tenta copiar, consome, adapta, admira e deseja fervorosamente, mas nunca, em tempo algum, vai conseguir igualar. Porque no mundo podem existir milhões de cópias. Mas Bahia, meu rei... Bahia só existe uma. Viva a arte de fazer BAIANADA!

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