Durante anos, a estratégia econômica da China foi tolerada, admirada e, muitas vezes, copiada. Desde sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, o país prometeu abrir seu mercado interno e jogar segundo as regras internacionais. Na prática, porém, seguiu por um caminho próprio — repleto de subsídios estatais, manipulação cambial e controle estatal da produção — que levou a uma expansão industrial sem precedentes, mas desequilibrada. Agora, em 2025, com Donald Trump de volta ao cenário político, essa expansão enfrenta sua mais severa reação global. Ao anunciar tarifas de 145% sobre uma ampla gama de produtos chineses, Trump não apenas reacendeu a guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas do planeta, mas também expôs uma estrutura de exportação chinesa que muitos especialistas consideram insustentável e desequilibrada. O ex-presidente, criticado por setores progressistas e parte da imprensa liberal, vem ganhando respaldo em estudos que apontam para distorsões graves nas relações comerciais globais causadas pela China, especialmente após a crise imobiliária de 2020.

A origem do problema remonta à década de 2000. Enquanto países ocidentais buscavam liberalizar mercados e reduzir interferências estatais, a China expandia sua produção com subsídios ocultos, energia subsidiada, terrenos industriais doados e crédito fácil fornecido por bancos estatais. Segundo levantamento do Rhodium Group, mais de 40% do crescimento da indústria pesada chinesa entre 2001 e 2018 foi sustentado por apoio estatal direto ou indireto. O resultado foi uma invasão de produtos ultrabaratos nas economias ocidentais. O estudo “The China Shock”, conduzido por David Autor (MIT), David Dorn (Universidade de Zurique) e Gordon Hanson (Universidade da Califórnia), identificou que entre 1999 e 2011, os Estados Unidos perderam mais de 2,4 milhões de empregos industriais diretos devido à concorrência chinesa — especialmente nas indústrias têxtil, de móveis e eletrodomésticos. No Brasil, o setor têxtil perdeu mais de 500 mil empregos formais entre 2005 e 2015, segundo a ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), com impacto direto da importação chinesa.

Após a crise do setor imobiliário em 2020, que arrastou gigantes como Evergrande e Country Garden à beira da insolvência, o Partido Comunista Chinês passou a apostar tudo na exportação como forma de sustentar sua economia. Dados do National Bureau of Statistics of China mostram que, apenas em 2023, as exportações chinesas representaram 46% do crescimento do PIB, número considerado “extremamente alto” por padrões internacionais. Com isso, o governo central reativou subsídios massivos à indústria — com destaque para os setores de painéis solares, carros elétricos, baterias e eletrônicos. O problema, segundo o economista Scott Kennedy, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), é que “a China passou a produzir muito além do que o mercado global é capaz de absorver”. Isso gerou o fenômeno chamado de overcapacity, ou excesso de capacidade produtiva. Como resultado, o mundo foi inundado por produtos chineses abaixo do preço de custo, desestabilizando economias locais e tornando inviável a produção doméstica em muitos países. Diante desse cenário, Trump implementou tarifas pesadas que atingem diretamente esses setores — e com efeito imediato. Na Feira de Cantão, o maior evento de exportações da China, realizada em março de 2025, mais de 50% dos produtos destinados aos EUA não conseguiram comprador. Em Guangzhou, centenas de pequenas e médias fábricas estão com produção paralisada. A Volkswagen encerrou suas operações em Nanjing após 16 anos, dispensando cerca de 900 trabalhadores, segundo a agência Xinhua.
Mais grave: a estratégia chinesa para evitar as tarifas, usando rotas alternativas e burlas legais, também está sendo fechada. O Office of the United States Trade Representative estima que mais de 1,1 bilhão de pacotes entraram nos EUA via México e Canadá em 2024, utilizando a cláusula "de minimis", que isenta tributos para mercadorias abaixo de US$ 800. Empresas como Temu e Shein exploram essa brecha sistematicamente, desmontando containers e reenviando os produtos em remessas fracionadas para evitar a taxação direta. Além disso, há práticas documentadas de transbordo (transshipment), como o caso clássico da “lavagem de mel” (honey laundering), em que o mel chinês era enviado a países como Vietnã, recebia novo rótulo e voltava ao mercado americano como “produto vietnamita”, com tarifas menores. Investigações da U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) comprovaram essa operação já em 2013, e as práticas continuam, agora com eletrônicos, roupas e autopeças.

A resposta internacional a esse colapso de confiança tem sido ampla. A Comissão Europeia abriu investigações contra os subsídios chineses para veículos elétricos e já elevou tarifas em até 27,5% sobre modelos importados. O Japão lançou um plano de repatriação industrial e a Índia, através de seu programa Production-Linked Incentive (PLI), está atraindo gigantes como Apple, Foxconn e Samsung para instalação de fábricas locais. O Brasil, mesmo timidamente, passou a revisar as regras de antidumping e os critérios de origem nas importações da Ásia. O cenário interno da China também preocupa. Embora o país possua 1,4 bilhão de habitantes, a tentativa de estimular o consumo doméstico tem falhado. A crise imobiliária corroeu a confiança da classe média, e a taxa de poupança subiu para 39% da renda das famílias em 2024, segundo o People’s Bank of China. Isso inibe o consumo, inviabilizando a substituição do mercado externo.
Como afirmou Gita Gopinath, economista-chefe do FMI, em relatório de março: “A China ainda opera como uma economia de exportação dependente. Sua resiliência depende da abertura de mercados estrangeiros. Quando isso falha, o risco sistêmico se espalha para além da Ásia.” Mesmo países que antes se beneficiavam do modelo chinês agora começam a recuar. O Vietnã, um dos principais pontos de transbordo, aumentou o controle alfandegário após pressões dos EUA. A Austrália endureceu as regras sobre importações de aço e alumínio chineses. E o México passou a investigar fraudes documentais em pacotes remetidos via comércio eletrônico. Segundo o Goldman Sachs China Trade Review 2025, até 20 milhões de trabalhadores chineses estão diretamente vinculados à produção para o mercado americano. Enquanto consumidores nos EUA e Europa podem transferir sua demanda para outros fornecedores — como Vietnã, México, Bangladesh e Índia —, as fábricas chinesas estão imobilizadas em sua geografia e logística.

A estratégia de Trump pode ser controversa, mas o contexto revela uma reação global a um modelo que muitos analistas descrevem como “incompatível com o comércio justo”. Como explicou Robert Lighthizer, ex-representante de comércio dos EUA. “Não se trata de punir a China. Trata-se de preservar uma ordem econômica baseada em regras. Se isso não for feito agora, o colapso será inevitável.” Com uma economia global redesenhando suas cadeias produtivas, a guerra tarifária de Trump pode estar longe de ser uma loucura isolada. Pode ser, na verdade, o início de uma reestruturação mais profunda — onde não se trata apenas de tarifas, mas da definição de um novo equilíbrio econômico mundial.

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