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Governo enfrenta críticas após alta histórica da picanha e avanço de novo imposto sobre cerveja

Ambos os temas têm relevância econômica direta, mas também tocam um ponto sensível do discurso político recente

Governo enfrenta críticas após alta histórica da picanha e avanço de novo imposto sobre cerveja
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O governo federal enfrenta uma nova onda de críticas após dois fatos com forte apelo simbólico atingirem o consumidor brasileiro: a picanha, um dos cortes de carne mais populares no país, atingiu o maior preço dos últimos 18 anos; e um projeto de lei que prevê a criação de um novo imposto sobre a cerveja avança no Congresso com apoio da base governista.

Ambos os temas têm relevância econômica direta, mas também tocam um ponto sensível do discurso político recente: a promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que, sob sua gestão, “a picanha e a cervejinha voltariam à mesa do povo”.

Preço da Picanha atinge recorde histórico
Segundo levantamento da Revista Oeste com base em dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) e da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o preço do quilo da picanha atingiu em junho de 2025 o patamar mais alto desde 2007. Em média, o quilo ultrapassou R$ 92,00 nas principais capitais, resultado de uma combinação de fatores:

Aumento da exportação de carne bovina para China e Oriente Médio;
Alta no custo do milho e soja (principais insumos da ração bovina);
Estagnação da produção pecuária em algumas regiões do Centro-Oeste;
Pressões inflacionárias no setor de proteína animal.

Embora o governo afirme que o valor da carne é definido pelo mercado e não por política pública direta, especialistas em economia agropecuária apontam que a ausência de políticas estruturantes para o setor, como incentivo à produção interna e controle logístico, contribuiu para o aumento do preço ao consumidor final.

Projeto de novo imposto sobre cerveja avança no Congresso
Paralelamente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que prevê a criação de um novo imposto seletivo sobre bebidas alcoólicas, incluindo a cerveja, sob o argumento de alinhar a tributação com padrões internacionais e gerar receitas adicionais para o Estado.

O projeto integra a fase de regulamentação da Reforma Tributária aprovada em 2023, e visa substituir a atual lógica de cobrança por um modelo que considera o teor alcoólico e o tipo de bebida. A proposta tem apoio técnico do Ministério da Fazenda e foi mencionada em entrevistas por assessores do ministro Fernando Haddad como parte do "ajuste da cesta de tributos seletivos", ao lado de cigarros e refrigerantes.

Contudo, o impacto direto ao consumidor preocupa setores da economia. A Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil) alertou que o novo modelo pode resultar em aumento de até 20% no preço final da cerveja mais consumida pelos brasileiros. Restaurantes, bares e distribuidoras temem retração do consumo, especialmente entre as camadas de menor renda.

Impacto político e simbólico
O aumento da carne e a possibilidade de encarecimento da cerveja atingem diretamente dois produtos simbólicos da promessa de reconstrução do poder de compra do brasileiro feita pelo governo Lula durante a campanha de 2022. À época, a “picanha com cervejinha” se tornou símbolo de uma suposta retomada do crescimento com inclusão social.

Agora, o cenário econômico e fiscal do país — marcado por ajustes tributários, pressão inflacionária setorial e expansão de gastos públicos — desafia a manutenção dessa promessa no cotidiano da população.

Posição do Governo
Em nota oficial, o Ministério da Fazenda afirmou que o projeto de imposto seletivo ainda está sob debate e será amplamente discutido com o setor produtivo antes de eventual sanção. Sobre o preço da carne, o governo alegou que “o mercado de proteína animal é volátil” e que medidas de incentivo à produção estão sendo estudadas.

Por outro lado, o Ministério do Desenvolvimento Agrário informou que ampliou o crédito para pequenos produtores, mas reconhece que os efeitos na oferta de carne só devem ser sentidos em médio prazo.

O que dizem os especialistas
Para o economista Guilherme Dias, da FGV-SP, “o governo está tentando equilibrar arrecadação e gasto social, mas o aumento do preço da picanha e da cerveja atinge simbolicamente o eleitor de menor renda, justamente o principal beneficiado dos programas sociais. Isso desgasta a narrativa política”.

Já a professora de Direito Tributário, Ana Cristina Nogueira, afirma que “o imposto seletivo não é necessariamente ruim, mas deve ser calibrado com sensibilidade social. Tributar cerveja como item de luxo ignora sua presença cultural e econômica na vida popular”.

O avanço do projeto de tributação sobre cerveja e o recorde no preço da picanha expõem um paradoxo na gestão econômica do governo federal: entre a necessidade de aumentar a arrecadação e a promessa de manter o consumo acessível à população.

Com temas de forte apelo simbólico, o debate em torno da “picanha e da cervejinha” transcende os números e coloca em xeque a coerência entre o discurso de campanha e os resultados efetivos da política econômica atual.

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