O início do atual império petista no estado da Bahia, ocorreu nas eleições de 2006, quando Jaques Wagner venceu o pleito para governador, colocando um ponto final a uma era de 16 anos de governos carlistas (grupo político chefiado por ACM). O partido em nosso estado soube surfar a “onda vermelha” que tomava conta de todo Brasil, nesse período reelegia Lula presidente do país e formava a segunda maior bancada com 83 representantes, na câmara dos deputados. A relação de governo do estado e governo federal, ambos do mesmo partido (PT), possibilitou a implementação conjunta de projetos que antes eram somente de nível nacional, programas como; Fome Zero, Luz para Todos, Bolsa Família, ProUni, Minha Casa Minha Vida, Programa de Aceleração do Crescimento e outros, foram unificados na esfera estadual.
Essa relação um tanto simbiótica e ao mesmo tempo parasitária, permitia um melhor desenvolvimento dos projetos petistas no país, mas também permitia que o Estado baiano, colhesse frutos e até mesmo os “louros da vitória” da execução do mesmo. Era muito comum na época ver propagandas do governo estadual, se vangloriando por ter recuperado milhares de quilômetros de estradas, ter levado energia elétrica a centenas de casas da zona rural baiana ou até mesmo ter tirado da miséria milhares de pessoas. Quando na verdade essas ações eram realizadas quase em sua totalidade pelo governo federal. Tudo isso e uma intensa e operante máquina de marketing estatal, viabilizou o crescimento expressivo do PT na Bahia, colocando-a nos seguintes anos, como um dos maiores redutos do partido no Brasil.
Nos últimos 16 anos, foram 4 eleições de governador vencidas no primeiro turno, sendo a última em 2018, com uma margem história de 75,50% dos votos. Crescimento vertiginoso de quantidade de prefeituras no estado, saindo de 19 prefeitos eleitos em 2004, subindo para 66 em 2008 e chegando ao ápice de 93 prefeituras conquistadas em 2012. Levando em consideração que a Bahia possui 417 municípios, o PT chegou a comandar quase ¼ das cidades baianas, possuindo então, quase uma hegemonia de poder nas 3 instâncias: federal, estadual e municipal. Essa hegemonia também foi sentida nas eleições representativas; como na ALBA (Assembleia Legislativa da Bahia), que o PT sempre teve uma das maiores bancadas, sendo de 2006 até 2018 uma média de 10 deputados por pleito. Já a bancada baiana na câmara dos deputados federais, desde 2010 o partido é que mais tem representantes com média de 9 deputados em um total de 39 vagas. E no senado, das últimas 5 cadeiras disputadas, 2 foram vencidas por candidatos petistas e as outras 3 por candidatos aliados, que tinham o apoio do partido.
Essas alianças políticas com outros partidos, foram um diferencial importante nesse período, pois fortaleceu as bases do PT aqui no estado e oportunizou que o partido permanecesse todo esse tempo conquistando tantos cargos. A estratégia era bem simples e velha, dividir o poder utilizando importantes postos estatais, secretarias e cargos políticos de segundo escalão, como moeda de troca para atrair parceiros. Em 2006 o vice govenador era do PMDB, em 2010/2014/2018 o vice era do PP. Nesse período sob a chancela e prestigio do PT, foram eleitos 2 senadores do PSD e 1 do PSB. Desde 2014 formou-se uma “trinca” na política baiana, que se manteve unida, defendendo o poder e principalmente seus interesses, até poucos dias atrás. A sua formação era PT com Rui Costa como governador por dois mandatos e um senador (Jaques Wagner), o PP com o duas vezes vice governador João Leão e o PSD com dois senadores (Otto Alencar e Ângelo Coronel. Já na ALBA essa forte tríade é responsável por 26 deputados estatuais, ampliando essa base governista para outros pequenos partidos de esquerda, esse número chega a 43 dos 63 deputados.
Todo esse cenário político colocou a Bahia a partir de 2016 como o maior reduto petista no Brasil e em 2020 esse posto foi reafirmado de maneira mais categórica sendo o estado com mais prefeituras comandadas pelo PT. Não é à toa que Jose Dirceu em 2020 foi morar em Ilhéus e antes do malabarismo jurídico realizado pelo STF, para tornar Lula elegível, os planos eram que o molusco de nove dedos, fosse morar em Camaçari. Com a intenção de galgar a disputa ao senado da Bahia e Rui Costa seria o provável candidato a presidência da república. É esse o apogeu dessa era vermelha baiana, com reconhecimento da importância do estado para o PT. Porem já vinha surgindo uma série de fatores responsáveis pelo rápido declínio do partido na Bahia. O primeiro deles é o declínio do próprio PT a nível nacional, que teve o ápice de sua relevância política nacional entre 2010 e 2012 com a confirmação da sucessão presidencial de Lula, por Dilma Rousseff e seu auge na quantidade de prefeituras pelo Brasil, totalizando 630 municípios.
Tudo mudou a partir de 2014, com a explosão de descobertas de casos de corrupção, início das investigações da operação lava jato, petrolão, esquemas no BNDS, caos econômico provocado pelo governo federal, que culminou no impeachment da então presidente Dilma. Isso atingiu em cheio as maiores lideranças petistas, levando muitos deles até a prisão, caso do ex presidente Lula, Dirceu, Palocci, Vaccari Neto e outros. Implodindo de dentro pra fora a estrutura do partido que levou anos para ser construída, sem contar na confiabilidade do eleitorado que se esvaia pelo ralo. Nas eleições seguintes a representatividade do partido diminuiu paulatinamente, exemplo a quantidade de deputados federais eleitos em 2010 que era de 88, em 2014 cai pra 69 e em 2018 pra 56, uma queda de quase 36%. A quantidade de prefeituras comandadas pelo PT em todo Brasil, que em 2012 eram de 630, cai pra 254 em 2016 e 179 em 2020, um decréscimo de quase 72%.
Essa derrocada em nível nacional, atinge também diretamente o partido no âmbito da Bahia, exemplo a quantidade de prefeituras no estado, que eram 93 em 2012, cai pra 39 em 2016 e para 32 em 2020, uma queda de 58%. Outro problema, foi a falta de capacidade do atual governador Rui Costa em formar um sucessor de dentro do próprio partido, para concorrer ás eleições agora em 2022. O que os obrigaram a pensar em velhos nomes, como o ex governador Jaques Wagner e o atual senador Otto Alencar, porem ambos não aceitaram tal missão. Sobrou então para Jerônimo Rodrigues, nome totalmente desconhecido do povo baiano e inexperiente quanto a disputas eleitorais. O mais “interessante” é que Jerônimo era o secretário de educação da Bahia, de 2019 até final de março desse ano. Período esse que abrangeu a pandemia, quando as escolas estaduais permaneceram fechadas por praticamente 2 anos, sendo que absolutamente nada fora feito diante desse cenário. Fora os péssimos índices desempenho que o estado tem nessa área como: IDEB de 5,3 (nota que vai até 10) e taxa de analfabetismo de 13% da população baiana com 15 anos ou mais, esses números são os piores números do Brasil.
Nesse exato momento tudo conspira contra o PT na Bahia, a escolha do pré candidato ao governo, desagradou João Leão do PP, antigo vice governador. Que abriu mão de seu cargo, para se candidatar ao senado com o apoio de ACM Neto. Rompendo assim uma aliança política de anos e enfraquecendo ainda mais as bases petistas. Por sua vez o pré candidato do União Brasil, aumenta a cada dia suas chances nessa disputa, que traz a vários baianos o sentimento de nostalgia em relação ao seu avó. Sem contar o seu espolio político, que é um dos maiores do estado e a sua altíssima aprovação em seus dois mandatos como prefeito de Salvador, que culminou na eleição em primeiro turno de seu indicado Bruno Reis. Temos também as pesquisas eleitorais indicando uma possível vitória no primeiro turno de Neto com 66%, o que é respaldado pelo histórico do estado que desde 1998 elege seus governadores, logo no primeiro turno, com mais de 50% do votos. O que também não favorece os petistas, é que o baiano possui o costume de colocar um ponto final em longos períodos de comando de um mesmo grupo. O sentimento de mudança que elegeu Jaques Wagner em 2006 contra Paulo Souto, é o mesmo que está latente e está perceptível nas ruas, querendo a alternância de poder.
Outro fator que devemos ficar muito atentos nessa equação é o peso que Bolsonaro terá ou não nas eleições e seu poder de apoio no candidato a governador, João Roma. Que no momento está em segundo lugar nas intenções de voto, a frente inclusive do candidato do PT, Jeronimo Rodrigues. Vamos ficar atentos aos próximos acontecimentos do BBB (Big Brother Bahia), para sabermos os possíveis direcionamentos. Porem analisando os sinais políticos recentes, em minha humilde opinião estamos testemunhando os últimos momentos do PT no comando do estado da Bahia, é o fim de um reinado que deixou muito a desejar.