O roteiro é antigo, mas a reprise sempre cobra seu preço. Por décadas, o pacto social invisível funcionou com a precisão de um relógio suíço fincado no lodo: deem-lhes o circo, e eles esquecerão a falta de pão. Ou pior, aceitarão o pão amanhecido, o pão com gosto de poeira da estrada esburacada, o pão racionado pelas migalhas da corrupção.
Mas o que acontece quando o circo não dá certo? O que sobra quando a lona desaba na cabeça dos palhaços e a Noruega — ironicamente, um país onde o IDH beira a perfeição e o saneamento básico não é promessa de palanque — apaga as luzes da nossa ilusão?
Sobra o choque da realidade nua.
Quando o juiz apita o fim do jogo e decreta a eliminação, o feitiço que hipnotizava a massa quebra-se em mil pedaços. O torcedor, que até ontem pintava o rosto para esquecer o esgoto que corre a céu aberto na porta de casa, pisca os olhos, atordoado. A fumaça dos fogos de artifício se dissipa e revela exatamente o que ela tentava esconder: a cratera na avenida principal, o posto de saúde sem dipirona, a escola pública com paredes descascadas e a violência que espreita em cada esquina escura.
O brasileiro, historicamente cético e calejado pelos desmandos de uma classe política que se encastela no poder, sempre usou o futebol como o último reduto de sua dignidade. Era a nossa única certeza de superioridade. "Somos ruins de gestão, mas somos reis de chuteiras", dizia o consolo popular.
Agora, nem isso. O circo, promovido e patrocinado pelo próprio sangue e suor do povo, faliu.
É patético assistir aos grandes líderes de ocasião — esses mesmos que manipulam preceitos constitucionais como se fossem regras de um jogo de cartas marcadas, que se perpetuam no poder criando dinastias da miséria — tentarem se fantasiar de heróis da pátria. Eles, que adoram posar ao lado de troféus, agora recolhem suas bandeiras, torcendo para que o povo encontre outra distração rápida antes que comece a olhar diretamente para as suas mãos sujas de incompetência.
As obras malfeitas continuam lá, superfaturadas e inacabadas, monumentos à desfaçatez humana. O saneamento que falta na rua parece ter inundado a moral dos gestores. E nós, que tantas vezes nos contentamos com o espetáculo mambembe da propaganda oficial, ficamos segurando um ingresso caro para um show que terminou em fiasco.
A derrota para a Noruega não foi apenas tática; foi um choque cultural. Mostrou que quem investe em estrutura, educação, seriedade e planejamento colhe frutos — tanto na vida pública quanto nos gramados. Enquanto isso, nós, que apostamos a nossa saúde mental na genialidade improvisada de um drible, ficamos órfãos de pátria por noventa minutos.
O apito final ecoou como um tapa na cara da nossa complacência. Sem a cortina de fumaça da Seleção, a segunda-feira amanhece crua. Os buracos nas ruas continuam no mesmo lugar. A corrupção continua operando nos bastidores. O circo ruiu. E agora, Excelências? O que vocês vão inventar para nos fazer esquecer que o pão acabou?

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