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Terça-feira, 09 de Junho 2026
Editorial

O perigo da estética sem conteúdo nas eleições de 2026

Esse cenário é alimentado e gerido por uma legião de pseudomarketeiros. Profissionais que, incapacitados de debater políticas estruturais, vendem "fórmulas mágicas de engajamento"

Agazetta
Por Agazetta
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O perigo da estética sem conteúdo nas eleições de 2026
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O debate político brasileiro caminha a passos largos para um perigoso apagão de realidade. À medida que nos aproximamos do pleito de 2026, consolida-se no cenário eleitoral uma ilusão manufaturada por filtros, cortes rápidos e narrativas de quinze segundos. A popularização de ferramentas avançadas de edição, o uso indiscriminado de inteligências artificiais e a ditadura dos vídeos curtos criaram um fenômeno nocivo: o candidato de laboratório. Trata-se de figuras públicas construídas do dia para a noite, indivíduos que nunca lideraram um projeto social, nunca pisaram em uma associação de bairro e mal sabem articular um raciocínio complexo, mas que se apresentam como a salvação da pauta pública respaldados apenas pela relevância artificial das telas.

Bola de Cristal
Bola de Cristal

Esse cenário é alimentado e gerido por uma legião de pseudomarketeiros. Profissionais que, incapacitados de debater políticas estruturais, vendem "fórmulas mágicas de engajamento" e orientam seus clientes a usar os recursos técnicos dos aplicativos não para comunicar propostas, mas para camuflar a absoluta falta delas. O discurso que se ouve nessas campanhas digitais é herdado diretamente de uma safra já falida de influenciadores digitais: uma estética baseada no vazio, na polêmica manufaturada, na reação encenada e na ostentação de uma autoridade que carece de lastro prático. Gesticula-se muito, fala-se com imposição, insere-se uma trilha sonora empolgante, mas, ao espremer o conteúdo, não resta uma única linha dedicada à saúde, à educação ou à infraestrutura.

O grande equívoco dessa engrenagem é a tentativa anacrônica de repetir o feito de 2018. Há quase oito anos, a campanha de Jair Messias Bolsonaro utilizou o WhatsApp de forma pioneira e orgânica, impulsionada por uma limitação severa de tempo de televisão e de recursos financeiros. Aquilo respondeu a um momento histórico específico e a uma demanda por canais diretos de comunicação. No entanto, os estrategistas de gabinete de 2026 cometem um erro crasso de leitura histórica ao acreditar que o mesmo fenômeno pode ser replicado por meio de dancinhas, robôs e disparos artificiais. Eles ignoram que o eleitor amadureceu, que os algoritmos das plataformas mudaram drasticamente e que a Justiça Eleitoral hoje atua com rigor muito superior sobre o uso de tecnologias e impulsionamentos. O que em 2018 soava como autenticidade espalhafatosa, hoje é percebido claramente como oportunismo ensaiado.

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Dona Maria
Dona Maria

Enquanto o operador de redes sociais comemora nos bastidores que o vídeo do candidato "bateu a métrica de retenção" no TikTok ou alcançou um CTR elevado no Instagram, a Dona Maria, lá no fim do mundo, não faz a menor ideia do que seja um algoritmo. Ela não come curtidas, não se alimenta de engajamento e tampouco se interessa por polêmicas vazias na bolha do X. O que ela precisa saber, de forma urgente e sem rodeios, é se o posto de saúde terá o remédio para sua pressão, se haverá vaga na creche para seu neto e se o ônibus do bairro passará no horário correto para que ela não fique vulnerável em um ponto escuro.

Essa obsessão técnica por números virtuais reduziu a política a um jogo de videogame, onde acumular curtidas tornou-se mais importante do que acumular soluções. Há um abismo intransponível entre a "Faria Lima digital" e a realidade do Brasil profundo. O marketing político perdeu sua conexão com o chão de fábrica, com a feira livre e com as dores mais elementares da população. O cidadão comum acorda cedo e lida com problemas concretos; ele não busca um criador de conteúdo para entretê-lo, mas um solucionador de problemas capaz de gerir o Estado com competência e sensibilidade social.

Abordagem do Nada
Abordagem do Nada

Salvar o debate público em 2026 exige arrastar a discussão de volta para as pautas estruturais que o país precisa enfrentar. A população demanda discussões sérias sobre o custo de vida, a inflação dos alimentos e a perda do poder de compra da classe trabalhadora. Exige propostas reais para conter o avanço das facções criminosas e fortalecer o policiamento comunitário na Segurança Pública. Urge debater a descentralização do atendimento médico, a redução das filas do SUS, a expansão das escolas em tempo integral e a capacitação técnica dos jovens para o mercado atual. Esses são os temas reais, avessos ao imediatismo dos vídeos de quinze segundos.

O voto não é um clique de aprovação, não é um "coração" na tela e não se resume a um compartilhamento. O voto gera consequências físicas e severas na vida de milhões de pessoas. Candidatos forjados exclusivamente na estética digital tendem a sumir assim que a luz da câmera se apaga, deixando para trás os mesmos problemas de sempre. Em 2026, a maturidade política será medida pela nossa capacidade de rejeitar o espetáculo do nada e exigir, em definitivo, o compromisso real.

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