A faixa territorial que se estende entre os municípios de Porto Seguro, Prado e Itamaraju vive dias de apreensão continuada. No centro de uma das maiores disputas fundiárias e socioambientais do país está a área da Fazenda Barra Velha e o complexo territorial que envolve a expansão da Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal. O litígio, que atravessa gerações, ganha um novo capítulo com a articulação da vinda de um representante da Organização das Nações Unidas (ONU) para vistoriar o local e elaborar um relatório independente sobre as violações e desdobramentos na região.

Do Marco Histórico à Explosão Territorial

Um dos pedaços da terra que estão brigando.
Um dos pedaços da terra que estão brigando.

O conflito tem raízes na sobreposição de diretrizes estatais ao longo das décadas. Em 1961, a União homologou a Reserva Indígena Barra Velha com aproximadamente 8,6 mil hectares. Na mesma época, a criação do Parque Nacional do Monte Pascoal gerou uma disputa de gestão entre a conservação ambiental de proteção integral e o direito territorial dos Pataxó.

O divisor de águas ocorreu a partir dos anos 1990 e 2000, quando relatórios de reidentificação da FUNAI apontaram que a ocupação tradicional Pataxó abrangia uma área de cerca de 52 mil hectares. Essa projeção demarcatória incidiu diretamente sobre dezenas de propriedades privadas consolidadas, produtivas e registradas em cartório há mais de meio século, dando início a uma batalha nos tribunais e no campo.

A Batalha nos Tribunais e a Dinâmica no Terreno

O imbróglio jurídico tramita na Justiça Federal (com decisões oriundas das Varas de Eunápolis e Teixeira de Freitas, do TRF-1 e do Supremo Tribunal Federal). De um lado, produtores rurais defendem o direito fundamental à propriedade, a validade dos títulos seculares concedidos pelo próprio Estado e a aplicação das diretrizes do Marco Temporal. Do outro, os Pataxó sustentam a tese do direito originário preexistente à Constituição de 1988, impulsionando ações de "retomada" de áreas em litígio.

No entanto, o cenário real foge do maniqueísmo. Quem vivencia o cotidiano da região observa que o conflito ganhou contornos complexos. Fontes locais e relatórios do setor produtivo apontam a ocorrência de ocupações que desviam do uso coletivo ancestral, derivando para o loteamento e comercialização ilegal de frações de terra para terceiros não indígenas.

A prática, repudiada também por lideranças indígenas tradicionais, é tratada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal (MPF) como infração gravíssima: por se tratar de terras da União ou sob estudo demarcatório, quem comercializa comete estelionato e loteamento clandestino, enquanto quem adquire não possui respaldo jurídico, gerando uma cadeia imprevisível de insegurança no campo.

Um dos pedaços da terra que estão brigando.
Um dos pedaços da terra que estão brigando.
Vistoria Internacional: Representante da ONU Acompanhará o Cenário

Em meio à escalada de tensões, informações apuradas apontam que um representante enviado pela ONU deve desembarcar no Extremo Sul da Bahia nos próximos meses. A visita tem como objetivo vistoriar in loco o estado de vulnerabilidade das comunidades, a situação das propriedades rurais afetadas e o cumprimento dos Direitos Humanos na região.

A comissão deve cumprir uma agenda de escuta que incluirá:

  • Lideranças indígenas e cacicados das áreas de retomada;

  • Sindicatos rurais e produtores atingidos pelas ocupações;

  • Órgãos do Judiciário e da segurança pública (MPF, Justiça Federal e Polícia Militar/Força Nacional).

O relatório emitido após a vistoria será encaminhado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Embora não tenha força de sentença judicial no foro interno brasileiro, o documento possui peso diplomático e servirá para municiar ações em trâmite no STF e negociações na Mesa de Conciliação coordenada pelo Governo Federal.

Impasse sem Data para Terminar

Enquanto as decisões definitivas do Supremo Tribunal Federal sobre indenizações de terra nua e a regulamentação da Lei de Demarcações não são pacificadas, a região do Monte Pascoal permanece em um limbo socioeconômico. A chegada da observação internacional traz visibilidade global ao litígio, mas o desfecho depende da capacidade do Estado brasileiro em garantir segurança jurídica, proteção às vidas e pacificação definitiva para todos os atores do Extremo Sul baiano.