Vivemos tempos em que a narrativa parece ter mais peso que a realidade. O discurso oficial repete, quase como mantra: “o desemprego está no menor patamar”, “a inflação está controlada”, “voltamos a ser a oitava economia do mundo”. Palavras bonitas, manchetes vistosas — mas que, diante dos dados, desmoronam como castelo de cartas.
Comecemos pelo desemprego. É verdade que a taxa caiu, segundo o IBGE, para a casa dos 7%. Mas o que esse número esconde é ainda mais grave: o país bate recordes de informalidade. Mais de 39 milhões de brasileiros trabalham sem carteira assinada ou em bicos temporários. O rendimento médio do trabalhador continua estagnado, corroído pela alta de preços, e a massa salarial não recupera o poder de compra de anos atrás. Ou seja, não é pleno emprego — é precarização. Há mais gente “ocupada”, mas vivendo com menos. O índice pode servir ao discurso, mas não ao prato do brasileiro.
Passemos à inflação. A propaganda fala em “deflação” e em “preços sob controle”. Mas basta abrir o boletim do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) para perceber o contrário. Entre 2023 e 2024, alimentos básicos como arroz, feijão, carne e óleo acumularam altas bem acima da média geral. O trabalhador sente isso no supermercado: o salário pode estar nominalmente igual, mas enche cada vez menos o carrinho. O alívio de 2022, quando houve deflação pontual após a redução de impostos sobre combustíveis, não foi política atual, mas medida anterior. Hoje, a tendência é de pressão inflacionária constante — e o “controle” vira mais uma ilusão estatística do que realidade cotidiana.
E sobre a tão repetida “8ª economia do mundo”? Sim, o Brasil voltou a essa posição, mas não por crescimento extraordinário. O FMI mostra que isso ocorreu muito mais pela desvalorização cambial em outros países e por ajustes metodológicos do que por avanços estruturais internos. O PIB brasileiro cresce em ritmo mediano, bem abaixo de países emergentes comparáveis como Índia ou Indonésia. Somos “gigantes” no ranking de manchetes, mas frágeis na vida real.
O que fica evidente é o abismo entre discurso e dado. A retórica oficial fala em país pujante, mas o povo enfrenta inflação de alimentos, empregos informais e salários corroídos. É a velha tática de dourar números para esconder problemas. Como diria Mark Twain, “há três tipos de mentira: a mentira, a maldita mentira e a estatística”.
Eis a ironia: enquanto celebram índices artificiais, o Brasil real continua nas filas do supermercado, no posto de gasolina e no sufoco das contas de luz. Esse país não cabe nos gráficos manipulados — ele vive no bolso vazio do cidadão. E, ao contrário da narrativa, os dados não mentem: o que mente é o uso seletivo deles para pintar um quadro que não existe.

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