A decisão do prefeito Girlei Lage de cancelar as festas juninas de 2025 sob a justificativa de priorizar obras de escoamento de água em áreas alagadas escancara um problema ainda mais profundo: a falta de planejamento estratégico e gestão preventiva. O drama das enchentes em Cabrália não é uma surpresa. Ao contrário, é um velho conhecido da população — um problema crônico que atravessa governos e cobra, ano após ano, um preço alto da população mais vulnerável.
Ao anunciar, com pouco mais de seis meses de mandato, que agora vai "investir com força total" na drenagem urbana, o prefeito confessa, ainda que indiretamente, o que muitos já vêm denunciando: o governo não se preparou. Não houve planejamento real nem início de execução de obras estruturantes nos primeiros meses, mesmo com os alertas constantes sobre o risco de chuvas intensas e suas consequências.
O exemplo de Porto Seguro é didático: quando Jânio Natal reassumiu o governo, iniciou imediatamente intervenções no sistema de drenagem das principais vias do centro da cidade. Com isso, mesmo diante de grandes volumes de chuva, os efeitos foram controlados e a cidade manteve a mobilidade e a segurança dos moradores. Em Cabrália, o cenário é oposto. Ruas intransitáveis, casas invadidas por lama e famílias desabrigadas se multiplicam — e agora, a cultura e a economia também entram na conta do prejuízo com o cancelamento das festas juninas.
A festa junina não é só diversão — é sustento. Cancelá-la é fechar os olhos para centenas de comerciantes, ambulantes, músicos, costureiras, barraqueiros, fornecedores, produtores culturais e trabalhadores informais que contam com essa temporada para complementar a renda ou até sobreviver. Em vez de apresentar soluções equilibradas, como manter o evento com formato reduzido e investir ao mesmo tempo em infraestrutura, a atual gestão optou por uma medida simplista e ineficaz, penalizando ainda mais uma população já castigada pela ausência de obras preventivas.
Afinal, o que é qualidade de gestão pública? É agir antes do problema surgir, não quando o caos já está instalado. É ouvir técnicos, usar os dados climáticos, conhecer a realidade da cidade e priorizar desde o primeiro dia de governo aquilo que a população mais precisa: segurança, estrutura e dignidade. Não há surpresa na chuva de Cabrália — o que há é falta de preparo.
Enquanto a cidade enfrenta enchentes há décadas, o atual governo teve tempo para organizar lives, inaugurações pontuais, agendas políticas e eventos institucionais, mas negligenciou o essencial: preparar a cidade para a chuva que, todos sabiam, viria. Agora, com a crise batendo à porta, a resposta é jogar a culpa no tempo e sacrificar a cultura.
O povo não precisa apenas de promessas no alagamento. Precisa de atitude quando o chão ainda está seco. Essa é a diferença entre uma gestão que antecipa e uma que apenas reage. Girlei Lage ainda tem tempo de mudar o rumo da administração. Mas, para isso, é preciso mais do que discursos: é preciso governar com visão, coragem e responsabilidade.

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