A recente investigação conduzida pela Polícia Federal e o consequente indiciamento de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por suposta violação de sigilo funcional, lança luz sobre uma questão preocupante: o poder estaria cegando Alexandre de Moraes?

Os vazamentos de diálogos do ministro com servidores do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF) expõem não só sua postura centralizadora, mas também sua obsessiva busca por controle absoluto. Ao ver seu nome envolvido no escândalo, Moraes prontamente negou irregularidades e justificou suas ações dentro de um suposto rigor institucional. No entanto, sua própria declaração de que "seria esquizofrênico" se auto-oficiar não poderia ser mais simbólica. Afinal, seu comportamento levanta dúvidas se ele ainda consegue distinguir os limites entre sua função e suas convicções pessoais.

O caso se torna ainda mais nebuloso quando analisamos a ação implacável contra seu ex-assessor. A recusa de Tagliaferro em entregar voluntariamente seu celular e sua alegação de que o dispositivo teve sua placa danificada antes de ser descartado podem até gerar dúvidas, mas a rapidez e a severidade da resposta de Moraes chamam a atenção. Até que ponto o ministro age com isenção ou se tornou refém de sua própria paranoica cruzada contra supostos inimigos da democracia?

Os áudios vazados revelam uma realidade inquietante dentro do TSE sob sua gestão. Em conversas, juízes auxiliares relatam a insistência de Moraes em buscar incessantemente provas, como se estivesse em uma caça obsessiva. A fala de um dos assessores, de que “se ficar procurando, vai encontrar”, ressoa como uma confissão involuntária do modus operandi do ministro. Ao que tudo indica, sua determinação em punir "inimigos" ultrapassa a razão e beira a inconsequência.

No entanto, um aspecto ainda mais intrigante emerge desse cenário: a inércia dos outros ministros do STF. Por que permanecem calados diante de tantos abusos de poder? Seria medo das represálias? Ou talvez a conivência com um sistema que se retroalimenta da ausência de questionamentos? A falta de oposição interna permite que Moraes continue agindo sem limites, consolidando sua posição como uma espécie de soberano inquestionável dentro da Suprema Corte.

O silêncio dos demais ministros reflete posturas distintas. Enquanto alguns, como Gilmar Mendes e Dias Toffoli, se mantêm próximos ao establishment político e evitam confrontos diretos, outros, como Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, parecem mais inclinados a uma visão progressista do Judiciário, o que pode justificar sua falta de resistência às ações de Moraes. Já ministros como André Mendonça e Nunes Marques, que chegaram ao STF com o respaldo de Bolsonaro, adotam uma postura mais discreta, mas sem força para se oporem ao ativismo judicial crescente.

Não é de hoje que Alexandre de Moraes acumula críticas sobre sua postura autocrática e sua expansiva interpretação do poder que detém. O ministro se colocou como paladino da moralidade, mas sua incessante busca por controle levanta a questão: ele ainda consegue enxergar a linha que separa justiça de vingança? O que antes podia ser visto como firmeza na defesa da democracia, hoje parece mais uma sede incontrolável por autoridade.

Se não houver freios, Moraes corre o risco de transformar sua própria sanidade em uma questão de debate público. O poder absoluto, ao que parece, não apenas corrompe, mas também cega.

O Perfil da nossa Corte Suprema

Cada ministro do STF possui um perfil jurídico e político distinto, moldado por suas decisões, votos e declarações públicas. Aqui está um panorama geral de como cada um pensa, com base em seus comportamentos e posicionamentos:

Alexandre de Moraes

Forte defensor do ativismo judicial, assumiu um papel central no combate à desinformação e atos antidemocráticos. Sua postura é vista por alguns como essencial para a proteção das instituições, enquanto outros a interpretam como autoritária e persecutória. Moraes demonstra uma visão expansionista do poder do STF, frequentemente estendendo suas decisões para além do convencional.

Gilmar Mendes

Conhecido por sua defesa enfática do garantismo jurídico, tem histórico de decisões que protegem réus contra abusos do Estado. Crítico da Lava Jato, foi peça-chave no enfraquecimento da operação. Nos últimos anos, tem se alinhado mais ao establishment político e defende um Judiciário forte e protagonista.

Luís Roberto Barroso

Defensor de pautas progressistas, como o ativismo judicial na defesa dos direitos das minorias. Possui um perfil acadêmico e articulado, mas também já demonstrou pragmatismo político. Como presidente do TSE, atuou para fortalecer a credibilidade do sistema eleitoral.

Cármen Lúcia

Adota uma postura discreta e técnica, mas já protagonizou momentos de firmeza, como quando votou pela prisão em segunda instância. Evita polêmicas e raramente se envolve em disputas políticas explícitas.

Edson Fachin

Ex-relator da Lava Jato, tem perfil mais técnico e acadêmico, mas já foi criticado por decisões que enfraqueceram o combate à corrupção. Suas posições tendem a seguir um viés progressista, especialmente em questões sociais e eleitorais.

Dias Toffoli

Possui um histórico de proximidade com o meio político, já tendo trabalhado na AGU no governo Lula. Suas decisões geralmente favorecem garantias individuais e o enfraquecimento de investigações de corrupção. Nos últimos anos, tem assumido um perfil mais discreto.

André Mendonça

Indicado por Bolsonaro, prometeu defender pautas conservadoras, mas tem adotado uma postura mais moderada no STF. Ainda assim, se posiciona em defesa de liberdades individuais e contra o ativismo judicial excessivo.

Nunes Marques

Também indicado por Bolsonaro, tem perfil garantista e conservador. Defende uma menor interferência do Judiciário em temas políticos e sociais, sendo um dos ministros menos alinhados ao ativismo judicial.

Cristiano Zanin

Advogado de Lula no caso da Lava Jato, tem sido criticado por sua suposta falta de independência. No STF, porém, tem demonstrado um viés garantista, votando contra prisões preventivas abusivas e em favor de réus investigados por corrupção.

Flávio Dino:
Recém-chegado à Corte, ainda não teve embates diretos, mas sua trajetória política e proximidade com o governo indicam que dificilmente se oporia ao ativismo de Moraes.

Luiz Fux:
Ex-presidente do STF, Fux sempre buscou uma postura institucionalista, evitando embates diretos com os colegas. Durante sua gestão, procurou equilibrar o tribunal, mas sem confrontar diretamente os excessos de Moraes. Sua atuação é marcada pela defesa do protagonismo do Judiciário, mas sem grandes confrontos públicos. Seu silêncio diante das ações de Moraes pode ser interpretado como pragmatismo ou falta de disposição para desafiar a autoridade consolidada do colega.

A inércia de alguns ministros diante das decisões de Moraes pode ter múltiplas causas: medo de represálias, alinhamento ideológico ou simplesmente uma estratégia política para evitar embates públicos.