O brasileiro já estava dedicando quase cinco meses inteiros do ano exclusivamente ao fisco e, por causa do aumento temporário do IOF decretado em 22 de maio, terá de estender esse esforço: o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calculou que a “Data da Liberdade de Impostos” saltou de 29 para 31 de maio, ou seja, de 149 para 151 dias de trabalho – 48 horas líquidas a mais no período de 12 meses, que alguns simuladores nas redes sociais projetam, de forma meramente didática, como se fosse um acréscimo de dois dias úteis em cada folha mensal para deixar claro o peso do reajuste .  O estopim dessa piora foi o Decreto 12.466/25, que elevou alíquotas de IOF em linhas de crédito, câmbio e seguros para reforçar a arrecadação em R$ 20,5 bilhões já em 2025 ; nas operações de capital de giro de pequenas empresas, por exemplo, a taxa anual subiu de 1,88 % para 3,95 %, igualando‐se à das pessoas físicas .  Segundo análise do BTG Pactual, isso encarece o financiamento típico de dois anos e meio em mais de cinco pontos percentuais e ameaça esfriar o PIB no segundo semestre .

O encarecimento vem num sistema já notoriamente regressivo: impostos sobre consumo drenam 22,7 % da renda média e respondem por 83 dos 151 dias trabalhados, enquanto tributos diretos sobre patrimônio consomem só 11 dias .  Esse desenho penaliza quem vive de salário e poupa pouco.  Estudo do Ipea mostrou que os 0,1 % mais ricos chegam a pagar efetiva de 13 % sobre a renda, percentual idêntico ao de assalariados que ganham cerca de R$ 6 mil, porque lucros e dividendos seguem isentos .  Não por acaso, o Brasil ocupa a última posição no IRBES, ranking que confronta carga tributária e qualidade dos serviços públicos: arrecada como país desenvolvido e entrega benefícios de nação emergente .

Enquanto isso, parte relevante das fortunas nacionais continua fora do alcance do fisco.  O relatório 2024 da Tax Justice Network estima que o mundo perca US$ 492 bi por ano para paraísos fiscais e que o Brasil esteja entre as cinco nações latino-americanas com maiores evasões de pessoa física, graças a offshores que concentram rendimentos intocáveis pelo IOF ou pelo IR .  Nem mesmo a lei de 2023 que criou tributação anual de 15 % sobre offshores – projetada para levantar R$ 30 bi – muda esse jogo no curto prazo, pois atinge cerca de 2,5 mil investidores de altíssima renda, número irrisório diante dos 59,9 milhões de brasileiros cujo contracheque está atrelado ao salário-mínimo .

Do lado de quem vive de trabalho, o quadro é inverso.  O salário-mínimo de R$ 1.518, com ganho real de 2,5 %, compra praticamente o mesmo número de cestas básicas que há cinco anos por causa da inflação de alimentos acima de 6 % ao ano , e o próprio Banco Central admite que a alta do IOF acrescenta de 0,03 a 0,05 p.p. ao IPCA, mantendo a projeção oficial em 5,6 %, acima da meta .  Assim, o trabalhador gasta mais para se endividar, mais para comer e vê o poder de compra estagnado até 2026, segundo o Dieese .  Na outra ponta, dados da Tax Justice e do estudo do IBPT indicam que o 0,5 % mais rico concentra um quarto da riqueza e dispõe de múltiplos mecanismos para postergar ou reduzir a incidência de tributos .

Nem mesmo a tentativa do Congresso de sustar o aumento pelo PDL 214/25 avança: há dezoito projetos semelhantes tramitando, mas, enquanto não forem promulgados, a Receita continua cobrando as novas alíquotas e sustenta que, se a suspensão virar lei, será preciso cortar R$ 12 bi em despesas ou criar outro tributo para fechar a meta fiscal .  Em suma, o Estado recorre a um imposto “silencioso”, de cobrança imediata, que recai sobre cada boleto de crédito e cada transação de câmbio, transferindo o ônus do ajuste fiscal para quem não tem como estruturar uma conta nas Ilhas Cayman.  Resultado: em 2025, o brasileiro comum sacrificará algo próximo de cem horas por mês – praticamente metade da sua jornada anual – apenas para sustentar tributos que financiam de subsídios a programas sociais até passagens internacionais da comitiva presidencial; as demais horas lhe restarão para pagar aluguel, comida, transporte e ainda bancar, via consumo, novas parcelas de impostos embutidos em tudo o que comprar.  Sem uma reforma que torne o sistema progressivo de verdade, o círculo vicioso permanece: os super-ricos seguem protegendo renda no exterior, o governo aperta impostos indiretos para fechar as contas, e o trabalhador assalariado continua pagando a conta com mais horas de suor e menos poder de compra.

FONTE/CRÉDITOS: Por Vinicius Brandão