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A matemática da política baiana frequentemente desafia as leis da gravidade econômica, mas o mais recente capítulo vindo das declarações de bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) conseguiu esticar a corda da perplexidade. O ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro e atual candidato ao Senado, João Roma (PL), apresentou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 22,1 milhões — uma disparada impressionante em relação aos R$ 5,5 milhões que declarava possuir em 2022.
Trata-se de uma valorização superior a 300% em apenas quatro anos. Uma façanha financeira que qualquer investidor do mercado de capitais invejaria, especialmente por ter sido construída justamente no período em que Roma esteve desprovido de mandato público ou cargo em gabinete executivo.
A dimensão desse salto não é apenas um detalhe estatístico de rodapé; é um elemento político corrosivo que lança sombras e questionamentos inevitáveis sobre a lisura e a origem de tamanha prosperidade em tempo recorde.
O mistério do milagre do agro particular
Como um ex-deputado federal que até janeiro de 2023 cumpria expediente nos salões alpetrados de Brasília conseguiu acumular quase R$ 16,6 milhões a mais em sua conta patrimonial enquanto estava na oposição?
A versão oficial e conveniente aponta para o setor imobiliário rural e o agronegócio. Na lista entregue ao TSE, aparecem frações milionárias da Fazenda Mirage (avaliadas em mais de R$ 10 milhões), além de terras espalhadas por Brejões, Iraquara, Cachoeira e Conceição da Feira, somadas a um aporte financeiro de R$ 2,28 milhões concedido via empréstimo à empresa LN Agropecuária.
Entretanto, nos bastidores da política e do mercado produtivo, a conta não fecha com tanta simplicidade sem levantar sobrancelhas:
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Mera atualização de mercado ou injeção atípica? A disparada nos valores decorre unicamente da reavaliação de bens antigos ou de aquisições recentes com capital novo? Se o dinheiro é novo, qual foi a fonte pagadora capaz de gerar tal liquidez para um político sem cargo público?
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O peso do trânsito institucional: É inevitável questionar em que medida a passagem pelo comando do Ministério da Cidadania — pasta que gerenciou orçamentos bilionários e programas de forte apelo social e econômico — abriu portas e gerou ativos ou facilidades para a estruturação posterior de empreendimentos rurais de alta rentabilidade.
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Capital societário e blindagem: A intensa circulação de valores em participações societárias e empréstimos interempresariais é uma engenharia que exige transparência absoluta para afastar a suspeita de interposta pessoa ou acúmulo desproporcional.
A contradição do discurso moralista
João Roma construiu sua plataforma na Bahia sob o pálio do conservadorismo, do combate à corrupção e da defesa intransigente da austeridade. No entanto, o choque entre o discurso direcionado ao eleitorado de renda média/baixa e a realidade dos seus extratos bancários cria um abismo difícil de transpor com meras justificativas burocráticas.
A ironia fica ainda mais aguda quando se observa a chapa que pretende governar a Bahia. Ao lado de ACM Neto, cujo patrimônio também saltou para expressivos R$ 84,8 milhões, o palanque de oposição se transforma em um verdadeiro "clube dos dezenas de milhões". A pergunta que ecoa no interior baiano — das regiões agrícolas ao litoral — é direta: como líderes que multiplicam suas fortunas pessoais em ritmo vertiginoso conseguem sentir na pele as dores de uma população que luta diariamente contra a inflação e a escassez de recursos?
A cobrança por respostas clarificadoras
À medida que a campanha eleitoral ganha as ruas e as telas, a exigência por explicações pormenorizadas deixa de ser mero ataque de adversários e passa a ser um dever de prestação de contas à sociedade. A opinião pública e os órgãos de fiscalização não podem se dar ao luxo de aceitar o "milagre da multiplicação dos bens" como um fato consumado e banal.
João Roma precisará ir além dos formulários padronizados do TSE e detalhar publicamente a origem de cada centavo que alavancou seu império particular nos últimos quatro anos. Sem a devida clareza sobre como operou essa transição de homem público a magnata do agronegócio regional, a dúvida sobre a lisura desse crescimento continuará a pairar como uma nuvem indigesta sobre a sua candidatura ao Senado.
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