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Há um personagem invisível, mas poderoso, na democracia brasileira: o Ministério Público. Criado para ser o “fiscal da lei”, o protetor dos interesses coletivos, o promotor da justiça social. Mas, nas entrelinhas da política local e nacional, ele anda tão discreto que chega a ser difícil saber se está ausente, distraído ou convenientemente calado.
Nas prefeituras do interior e até nas capitais, os escândalos se repetem com a teimosia de uma febre mal curada: prefeitos já condenados por improbidade administrativa seguem reinando, firmes, blindados por alianças podres e câmaras de vereadores que atuam mais como balcão de negócios do que como poder fiscalizador.
E onde está o Ministério Público?
Bem... Às vezes solta uma nota.
Outras vezes promete investigar.
Mas, na prática, parece mais ocupado com os rituais burocráticos do que com a função que lhe deu nome e respeito.
A impunidade virou regra. Prefeitos cassados juridicamente continuam no cargo graças a manobras políticas. Câmaras municipais atropelam pareceres do TCM, aprovam contas rejeitadas, rasgam a moralidade e esfregam a legalidade no asfalto esburacado das cidades.
E o MP? Segue impassível. Mesmo quando provocado, responde com lentidão, ou não responde. Quando age, é tarde.
Quando atua, é pontual — quase acidental.
A pergunta que ecoa nas ruas, nas redes e nos corredores das prefeituras é simples:
Quem fiscaliza o fiscal da lei?
A sensação generalizada é de que o Ministério Público foi tragado pela mesma lama que tenta (ou deveria tentar) combater. Em muitos casos, seus integrantes parecem mais interessados em manter relações políticas, manter cargos, ou simplesmente manter distância.
Não se trata de atacar a instituição — que é fundamental. Trata-se de lembrar que ela existe para servir ao povo, e não ao poder.
O povo, aliás, continua pagando caro:
– pela escola abandonada,
– pelo hospital sem gaze,
– pelo transporte quebrado,
– pelas ruas inundadas ano após ano.
Tudo isso em municípios que recebem milhões em repasses, convênios, emendas. Dinheiro tem. O que falta é o uso certo — e quem cobre, investigue e puna quando o uso é criminoso.
E enquanto isso, muitos promotores viram especialistas em fazer de conta:
De conta que investigam,
De conta que acompanham,
De conta que ainda acreditam no papel constitucional que assinaram um dia.
A política brasileira não precisa só de bons gestores — precisa também de órgãos de controle que funcionem de verdade.
Sem isso, a corrupção ganha terreno, a impunidade se institucionaliza, e o povo se acostuma com o abandono.
E talvez seja exatamente isso que alguns querem: um povo que não pergunte, não exija, não provoque.
Um povo que aceite que a justiça demora, quando vem — se vier.
No fim das contas, parece que o maior aliado da velha política não é o eleitor desinformado. É o fiscal desatento.
E quando o fiscal cochila, o ladrão faz festa.
E dança.
E se reelege.
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