Governo Lula financiou obras na Venezuela com dinheiro público brasileiro mesmo sob alerta de inadimplência. Anos depois, a conta chega: mais de R$ 8 bilhões em prejuízo, e indícios de corrupção velada colocam o caso sob novo escrutínio.

A Venezuela deixou de pagar mais de US$ 1,7 bilhão ao Brasil, acumulando uma dívida que, corrigida, já ultrapassa R$ 8 bilhões. O débito vem de obras financiadas entre os anos de 2007 e 2010, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aprovou, por meio do BNDES, o financiamento bilionário de projetos em solo venezuelano — como o metrô de Caracas e a Siderúrgica Nacional da Venezuela.

“Era previsível que a Venezuela se tornaria inadimplente. A economia já dava sinais de colapso e a instabilidade política era evidente. Mesmo assim, o governo brasileiro decidiu seguir com os repasses”, afirma o economista e ex-diretor do Banco Central Carlos Langoni, em entrevista à Folha Econômica Internacional.

O principal problema, segundo especialistas, não é apenas o calote. A construção dessas obras beneficiou empreiteiras brasileiras — como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez — que tinham relações estreitas com o governo Lula e foram alvos da Operação Lava Jato por superfaturamento, corrupção ativa e passiva.

“Trata-se de corrupção disfarçada de diplomacia econômica. Era um sistema no qual se financiava o exterior com dinheiro do contribuinte brasileiro, para que empresas amigas ganhassem contratos e pagassem propina depois. O caso da Venezuela é simbólico”, disse o jurista Modesto Carvalhosa, em artigo publicado no Estadão.

A engenharia do calote
Entre 2007 e 2010, o BNDES aprovou cerca de US$ 4,5 bilhões em financiamentos internacionais, muitos deles para ditaduras amigas do governo petista, como Venezuela, Cuba, Angola e Moçambique. Essas operações eram garantidas pelo Fundo de Garantia à Exportação (FGE) — ou seja, se o país devedor não pagasse, o Tesouro Nacional arcaria com o prejuízo.

“Estamos diante de um rombo causado por decisões políticas mal calculadas, que ignoraram alertas técnicos sobre o risco de inadimplência da Venezuela”, destaca Raquel Landim, analista internacional da CNN Brasil.

De fato, desde 2016 a Venezuela vem falhando em honrar parcelas da dívida. A partir daí, a União foi obrigada a pagar aos bancos com dinheiro do FGE. Em 2025, segundo documento oficial da Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, mais US$ 16 milhões (aproximadamente R$ 90 milhões) serão pagos pelo Brasil, mesmo com o país vizinho em completo silêncio diplomático.

Corrupção transnacional e silêncio oficial
A falta de cobrança ativa por parte do governo atual, também chefiado por Lula, levanta suspeitas de blindagem política. Os mesmos grupos empresariais que foram beneficiados com os contratos internacionais no passado voltaram a aparecer como doadores de campanhas e interlocutores privilegiados.

“Se fosse um erro técnico, tudo bem. Mas foi uma decisão política. E alguém ganhou muito com isso. O que temos aqui é uma corrupção transnacional sustentada por financiamento público brasileiro”, diz o procurador aposentado Deltan Dallagnol, em entrevista à revista Crusoé.

O BNDES se recusa a divulgar detalhes sobre a atual situação dos contratos, alegando sigilo bancário e diplomático. No entanto, o Ministério da Fazenda confirmou à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara que o FGE já foi acionado diversas vezes para cobrir calotes da Venezuela.

Impacto ao Brasil: o contribuinte é quem paga
O FGE é abastecido com dinheiro público. Ao ser ativado para cobrir a inadimplência venezuelana, os valores saem diretamente do caixa do Tesouro Nacional, reduzindo a capacidade de investimento em saúde, educação e infraestrutura no Brasil.

“Estamos pagando pelo metrô de Caracas enquanto não temos saneamento básico em milhões de residências brasileiras”, afirmou o deputado federal Kim Kataguiri (UNIÃO-SP), membro da Comissão de Relações Exteriores.

O senador Sérgio Moro (UNIÃO-PR) protocolou pedido de auditoria no TCU (Tribunal de Contas da União) para apurar responsabilidade dos gestores que aprovaram os financiamentos, cobrando responsabilização direta de Lula e dos ex-presidentes do BNDES.

Mais do que um calote internacional, a dívida da Venezuela revela um sistema de corrupção institucionalizada que ainda deixa marcas profundas na economia brasileira. O contribuinte paga a conta — e os beneficiados continuam blindados.

“É preciso revisar todo o modelo de financiamento internacional e punir os responsáveis por decisões sabidamente lesivas ao país. Esse caso não pode cair no esquecimento”, conclui o jurista Miguel Reale Júnior, em parecer ao Senado.

FONTE/CRÉDITOS: Por Vinicius Brandão