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Ah, a Bahia! E, por extensão, o Nordeste. Um caldeirão efervescente de cores, ritmos e, sobretudo, festas que embalam a alma e, convenientemente, esvaziam os cofres públicos. Enquanto o Brasil e o mundo se rendem ao gingado do Carnaval em Salvador e Olinda, à fogueira de São João que incendeia Campina Grande, e às micaretas que estendem a folia por todo o ano, a realidade por trás dos palcos gigantescos e dos shows milionários é, no mínimo, uma ironia cruel.
Porque, veja bem, o mesmo dinheiro que escoa para trazer "estrelas" da música, com seus cachês estratosféricos, é aquele que, misteriosamente, não encontra o caminho para áreas essenciais. Enquanto milhões são investidos no que se tornou um espetáculo de "Pão e Circo" em grande escala, a saúde pública padece, a educação rasteja, o saneamento básico é um luxo para poucos e a segurança… ah, a segurança virou lenda urbana, especialmente na Bahia.
Não é de se admirar que a região registre mais de 93 mil internações por doenças relacionadas à falta de saneamento só neste ano, ou que seis das dez cidades mais violentas do Brasil estejam justamente aqui, em terras baianas. É quase uma coreografia macabra: dançamos sobre fossas abertas, literalmente.
E o que dizer dos nossos "gestores" públicos? Eles, com uma canetada cheia de pompa, autorizam contratos milionários para essas festas, transformando cidades em palcos gigantes. São os mesmos que, com igual destreza, permitem que a infraestrutura se desfaça e os serviços básicos virem um luxo. O exemplo do prefeito de Eunápolis, Robério Oliveira, é emblemático. Condenado múltiplas vezes por improbidade e desvio de verbas, com direito a multas e suspensão de direitos políticos, ele insiste em tentar retornar ao poder. É a face da impunidade que se espelha nas ruas esburacadas e nos hospitais lotados.
No palco da cultura, a tragédia se repete. A contratação avassaladora de grandes nomes da música, que pouco se importam com a identidade local, não só marginaliza os talentosos artistas "tupiniquins", mas também escancara as portas para o superfaturamento e o desvio de verbas. Projetos culturais que deveriam impulsionar a diversidade e o talento regional acabam gerando dinheiro para "galáticos" e, supostamente, para os bolsos de alguns poucos privilegiados. A falta de incentivo à cultura local é uma ferida aberta, drenando a alma artística da própria terra.
A Assinatura Silenciosa do Povo: O Aval na Dança da Distração
O ponto mais irônico e talvez o mais amargo de toda essa narrativa é a assinatura do povo. Sim, essa mesma gente que, depois de pular até o chão ao som dos trios elétricos e dos hits de verão, exausta e de ressaca moral (ou não), late em busca de melhorias. O ciclo vicioso do "Pão e Circo" se completa com a anuência popular. A distração cultural, grandiosa e efêmera, serve como a cortina perfeita para a ineficiência administrativa. A massa canta, vibra, exige o bis, e só depois, quando a música para e as luzes se apagam, a realidade se impõe: a rua continua esburacada, o hospital sem médico, a escola sem professor.
A burocracia, essa entidade camaleônica, agradece a distração. Afinal, enquanto há festa, a fiscalização parece tirar férias. E assim, o grande espetáculo da Bahia e do Nordeste continua: um show de alegria na superfície, e um drama silencioso nas profundezas.
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