Há algo de curioso — quase poético — na política regional. Um ciclo tragicômico que se repete como um filme ruim reprisado na sessão da tarde: chove, alaga, o povo reclama, alguém joga pedra (metaforicamente... ou não), e depois, passado o caos, aparece o salvador da pátria com botas de borracha e promessas de redenção.

Foi assim em abril de 2023, em uma dessas cidades do sul da Bahia. As chuvas castigaram a população e, com elas, vieram as cenas de sempre: ruas transformadas em rios, casas invadidas pela água, pista rasgada, ponte arrastada e muita indignação popular. A gestão da época foi alvo de apedrejamento — literal e simbólico. Um espetáculo digno de novela mexicana, com direito a vereador indignado surfando na onda da revolta popular. Subiu no palanque da lama e, um ano depois, conquistou a cadeira que tanto cobiçava.

Mas a ironia da vida (e da política) não para por aí. Avançamos no calendário. A chuva voltou — mais tímida, é verdade —, mas as cenas são as mesmas: alagamentos, transtornos, ruas históricas novamente submersas. E, dessa vez, quem segura o guarda-chuva da responsabilidade? Pois é... o ex-apedrejador agora se vê na posição de apedrejado.

E o que se faz? Cancela-se a festa, a alegria do povo. Em vez de planejamento e infraestrutura, fecha-se a agenda de eventos como se isso fosse deter a força da natureza ou consolar quem está com água no joelho e esperança no limite.

Mas sejamos justos: o problema não está apenas em uma cidade. A tragédia é democrática — atinge todo mundo. De Itabuna a Ilhéus, de Porto Seguro a Una, passando por Cabrália, Itagimirim e outras tantas cidades da região, a cena se repete como um déjà-vu climático e político.

O mais curioso é que, tempos atrás, esse mesmo caos foi a catapulta de ascensão para muita gente. Em meio à lama, surgiram heróis improvisados: com celulares em punho, discursos inflamados e botas estrategicamente sujas de barro, se aproveitaram do alagamento para se secar politicamente. E conseguiram. A chamada "oposição burra" — aquela que atira sem propor, critica sem planejar, mas acerta no timing — deu resultado.

Hoje, o poder mudou de mãos, mas a enchente continua a mesma. A água é menos volumosa, mas o despreparo é o de sempre. A promessa de resolver os velhos problemas se dissolveu nas primeiras gotas do inverno. E a solução? Cancelar festa. Porque é mais fácil acabar com o forró do que com os alagamentos.

A verdade é que a natureza, com sua força imprevisível, vem nos lembrar de uma certeza incômoda: ainda somos apenas povo. Um povo que assiste, impotente, à comédia de erros dos que deveriam nos proteger. Um povo que paga caro — com imposto e com sapato molhado — por viver num país onde muitos políticos ainda não aprenderam a governar. Ou pior: nem querem.

A política tem dessas ironias que só a vida real é capaz de proporcionar. Um dia, o sujeito joga pedra no telhado alheio. No outro, descobre que o seu também é de vidro — e bem rachado.

No fim, não é sobre chuva. É sobre falta de vergonha.
E sobre um ciclo que insiste em se repetir — só mudam os nomes nos cargos e as desculpas nos microfones.