Ao manter relações diplomáticas cordiais com regimes que perseguem mulheres, oprimem minorias e executam homossexuais, o governo Lula expõe uma incoerência entre o discurso de direitos humanos e a prática internacional. Enquanto isso, Israel — única democracia plena do Oriente Médio — continua sendo atacado pela esquerda
Durante sua campanha eleitoral e nos primeiros anos do seu atual mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou seu compromisso com a democracia, os direitos humanos e o combate às desigualdades sociais. No entanto, suas decisões no campo da política externa têm colocado esse discurso em xeque. Ao escolher estabelecer laços diplomáticos cada vez mais amistosos com regimes como o do Irã, o governo brasileiro tem sido criticado por ignorar sistematicamente graves violações de direitos fundamentais — justamente aqueles que a esquerda costuma reivindicar como suas principais bandeiras.
Em maio de 2023, Lula defendeu abertamente o direito do Irã de desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos, ignorando as denúncias internacionais de que o regime iraniano esconde intenções militares por trás de seu suposto programa civil. “O Brasil defende o direito soberano do Irã de desenvolver seu programa nuclear com fins pacíficos”, afirmou Lula, durante uma declaração oficial no Palácio do Planalto, como noticiou o portal G1 em 15 de maio daquele ano.
A declaração veio num momento delicado, quando o regime dos aiatolás enfrentava duras críticas internacionais pela repressão brutal contra manifestações populares, iniciadas após a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos detida pela “polícia da moralidade” por supostamente usar incorretamente o hijab. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, mais de 500 pessoas morreram nos protestos subsequentes à tragédia, em atos reprimidos com força letal por forças de segurança iranianas.
Mesmo diante da comoção global, o governo brasileiro optou por não condenar o Irã. Uma apuração da Folha de S.Paulo, publicada em setembro de 2023, revelou que o Itamaraty evitou usar qualquer linguagem crítica em notas diplomáticas e se esquivou de se posicionar claramente sobre os abusos do regime islâmico. Em um momento em que líderes ocidentais e organizações de direitos humanos clamavam por uma posição ética, o Brasil preferiu o silêncio diplomático.
Enquanto isso, relatórios da Anistia Internacional e da Human Rights Watch continuam a documentar práticas sistemáticas de violações de direitos no Irã. Entre os abusos denunciados, destacam-se prisões arbitrárias de jornalistas e dissidentes, perseguições religiosas, proibição de partidos políticos opositores, censura da internet, e, principalmente, o uso da pena de morte contra homossexuais. Em 2023, ativistas iranianos em exílio denunciaram publicamente a execução de adolescentes por orientação sexual, em franca violação das convenções internacionais de direitos da criança.
O contraste se torna ainda mais gritante quando se observa o tratamento dado pelo governo Lula a Israel. Em fevereiro de 2024, durante uma viagem à Etiópia, o presidente brasileiro declarou que as ações de Israel na Faixa de Gaza se assemelhavam ao Holocausto perpetrado por Adolf Hitler contra os judeus. “O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Na verdade, existiu: quando Hitler resolveu matar os judeus”, disse Lula, em fala gravada e reproduzida por diversos veículos, incluindo O Globo.
A reação internacional foi imediata. O presidente do Museu do Holocausto de Jerusalém (Yad Vashem), Dani Dayan, declarou publicamente que a fala de Lula era uma trivialização vergonhosa do Holocausto e que cruzava uma linha vermelha moral. Em seu perfil oficial no X (antigo Twitter), Dayan escreveu: “A declaração de Lula é uma trivialização vergonhosa do Holocausto. Cruza uma linha vermelha. Nenhum objetivo político justifica isso.”
Enquanto Israel é uma democracia plena, com parlamento multipartidário, imprensa livre, liberdade religiosa e representação de muçulmanos e árabes no legislativo, o Irã mantém um regime teocrático xiita, com eleições controladas por clérigos, censura oficializada e brutal repressão contra qualquer forma de oposição. No entanto, o governo brasileiro tem preferido hostilizar Israel e contemporizar com o Irã — uma decisão que revela não apenas um alinhamento geopolítico, mas um viés ideológico que ignora fatos elementares sobre os princípios de liberdade e dignidade humana.
Esse paradoxo foi abordado em editorial do jornal El País Brasil, em março de 2024, que afirmou: “O governo brasileiro insiste em sua neutralidade ativa, mas ao silenciar diante de violações gritantes, transmite complacência. A dignidade humana não pode ser negociada em nome da diplomacia.”
A crítica é compartilhada por diversas ONGs internacionais. A Freedom House, no seu relatório anual de 2023, classificou o Irã como um país “não livre”, com nota 12 de 100 em indicadores de liberdade política e civil. Israel, por sua vez, aparece como “livre”, com nota 76, mesmo enfrentando desafios internos e tensões geopolíticas com os palestinos.
Para especialistas em política internacional, o apoio da esquerda brasileira ao Irã revela uma seletividade ética perigosa. Douglas Murray, escritor britânico e autor de “The War on the West”, declarou ao The Telegraph que “Israel representa uma sociedade pluralista sob ataque. Quem se opõe a Israel, sem condenar seus inimigos, está se opondo à liberdade”.
A direita brasileira, por sua vez, tem mantido uma postura mais clara e coerente no cenário internacional, defendendo valores como liberdade religiosa, respeito à propriedade privada, combate ao terrorismo e aliança com democracias liberais. O apoio declarado ao Estado de Israel, especialmente por parte de lideranças conservadoras e setores evangélicos, alinha-se a uma visão de mundo em que democracia, segurança e soberania são princípios inegociáveis.
Enquanto a esquerda reivindica para si o monopólio do discurso humanitário, sua prática diplomática contradiz frontalmente esse ideal. Ao se calar diante da opressão iraniana e ao atacar Israel de forma desproporcional, o governo Lula revela uma fragilidade moral que compromete a imagem do Brasil no cenário global.
Num mundo polarizado, onde a verdade é constantemente relativizada, a coerência se tornou um valor escasso — e, por isso mesmo, essencial. A esquerda brasileira, se quiser recuperar credibilidade, terá que decidir entre a fidelidade ideológica e o compromisso real com os direitos humanos.
Fontes citadas:
G1, “Lula defende direito do Irã ao programa nuclear” (15/05/2023) Folha de S.Paulo, “Brasil evita criticar o Irã após mortes de mulheres” (17/09/2023) ONU News, “UN condemns Iran’s excessive use of force against protestors” (2022) Amnesty International, Iran Country Report 2023 O Globo, “Lula compara ofensiva de Israel ao Holocausto” (19/02/2024) Times of Israel, “Yad Vashem slams Lula over Holocaust remarks” (19/02/2024) El País Brasil, Editorial (março de 2024) Freedom House, Freedom in the World 2023 The Telegraph, entrevista com Douglas Murray (2023)

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