Com a fragilidade das denúncias penais e o avanço de novos ministros no TSE, aliados vislumbram a possibilidade de Jair Bolsonaro reaver seus direitos políticos antes da próxima eleição presidencial.
Desde que foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em junho de 2023, o ex-presidente Jair Bolsonaro tem enfrentado uma série de investigações e acusações judiciais que, na prática, ainda não resultaram em condenação penal. A decisão do TSE — baseada em um suposto abuso de poder político durante uma reunião com embaixadores em 2022 — levou à cassação de seus direitos políticos até 2030. No entanto, a fragilidade das provas apresentadas em outros processos, aliada a mudanças na composição do TSE e no cenário jurídico nacional, abre espaço para a reavaliação da sua situação eleitoral.
Um dos casos mais emblemáticos é o das joias sauditas, em que Bolsonaro foi acusado de supostamente tentar se apropriar de itens de alto valor que teriam sido presenteados ao Estado brasileiro. No entanto, a narrativa de apropriação indevida tem perdido força à medida que a defesa apresenta documentos, registros e notas fiscais que apontam para a tentativa de regularização e devolução dos itens, além da ausência de qualquer comprovação de dolo ou intenção criminosa. Até agora, o Judiciário não apontou nenhuma prova conclusiva contra o ex-presidente no caso das joias.
Da mesma forma, as investigações sobre o suposto envolvimento de Bolsonaro nos atos de 8 de janeiro de 2023 e em uma suposta tentativa de golpe militar continuam sem provas concretas que vinculem diretamente o ex-presidente à articulação ou ao financiamento dos atos antidemocráticos. Apesar de menções em delações premiadas e conjecturas políticas, nenhuma sentença foi proferida nem indícios consistentes foram apresentados à opinião pública ou ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O contraste com o caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve suas condenações anuladas por questões formais (como a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e a suspeição do juiz Sérgio Moro), também levanta questionamentos no meio jurídico e político. Embora Lula tenha retornado à elegibilidade, o mérito das acusações da Lava Jato nunca foi absolvido, o que cria uma percepção de desequilíbrio no tratamento judicial entre os dois ex-presidentes.
Diante desse contexto, juristas e aliados de Bolsonaro defendem que sua inelegibilidade seja revista, especialmente se os processos penais em curso forem arquivados por falta de provas ou inconsistência nas acusações. Com a nomeação de novos ministros para o TSE, como o ministro André Mendonça — indicado por Bolsonaro ao STF e com perfil mais garantista —, cresce a esperança de que um novo julgamento possa reavaliar os fundamentos da condenação eleitoral.
O jurista e advogado criminalista Iuri Thomy comenta que “qualquer revisão da inelegibilidade depende da demonstração de que a decisão do TSE foi precipitada ou desproporcional frente aos fatos concretos”. Segundo ele, “se os demais processos penais não avançarem ou forem arquivados, haverá sim um argumento forte para sustentar que Bolsonaro foi vítima de uma decisão política travestida de jurídica”.
Por enquanto, Bolsonaro segue inelegível, mas o cenário está longe de ser definitivo. Seus advogados já trabalham com a hipótese de ajuizar recurso ao STF ou de provocar um novo julgamento no próprio TSE, sob alegação de ausência de justa causa e desequilíbrio institucional. “O Direito é dinâmico. E quando a verdade dos fatos começa a aparecer, até decisões judiciais podem e devem ser revistas”, conclui Thomy.
Se essa reviravolta ocorrer até 2026, o ex-presidente poderá, sim, retornar como candidato, reacendendo uma disputa eleitoral que promete ser uma das mais polarizadas da história do Brasil.
