A recente declaração de Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, sobre sua experiência em Belém durante a abertura da COP30 gerou uma onda de indignação e reações inflamadas no Brasil. O líder alemão, em discurso a empresários de seu país, não poupou críticas veladas à capital paraense, mencionando que nem ele nem os jornalistas que o acompanhavam sentiram vontade de permanecer no Brasil após o evento.

"Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: ‘Quem de vocês gostaria de ficar aqui?’ Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, na noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos.”

A fala foi interpretada por muitos como indelicada e xenófoba, com alguns chegando a rotular o chanceler de "nazista". É inegável que um chefe de governo deve manter um mínimo de decoro e evitar comentários publicamente desagradáveis sobre uma nação anfitriã. A crítica de Merz, feita para realçar as condições favoráveis de negócios na Alemanha, parece desnecessária em um contexto diplomático.

A Dureza da Realidade

Contudo, a polêmica levanta uma questão crucial que transcende a diplomacia: a referência do chanceler condiz com a dura realidade de Belém? Infelizmente, a resposta é sim.

Belém é um retrato amplificado de uma chaga social brasileira, sendo a capital com a maior proporção de habitantes vivendo em favelas, com quase 60% da população nessa situação, segundo o IBGE. A ausência de infraestrutura básica, notadamente a falta de saneamento, é gritante e impossível de ser escondida.

Organizar uma conferência global da magnitude da ONU em uma cidade com essa precariedade é, na prática, colocar a miséria, a falta de estrutura e a sujeira em uma vitrine mundial. O paradoxo se torna ainda mais cruel e irônico, dado que o evento é de temática ambiental.

COP30: Um Vexame Anunciado

A organização da própria COP30 se tornou um vexame que apenas reforça a crítica à nossa capacidade de gestão.

  • A falta de hotéis obrigou a acomodação de participantes em dois transatlânticos poluidores ancorados no porto da cidade.

  • Em um evento sem precedentes, a própria ONU, usualmente mais condescendente com países em desenvolvimento, emitiu um ultimato aos organizadores, exigindo melhorias urgentes na segurança, refrigeração das salas e no funcionamento dos banheiros.

Tanto a precariedade de Belém quanto os problemas organizacionais da COP30 revelam um estado geral de vulnerabilidade e incapacidade, que, em maior ou menor grau, assola diversas cidades brasileiras. A vergonha não reside na pobreza em si, mas na persistente falta de gestão e investimento público por parte dos governantes.

De Quem Cobrar Satisfação?

A verdadeira ofensa para o cidadão não deveria ser a fala de um líder estrangeiro, mas a negligência daqueles que são eleitos para administrar e proteger a nação.

Se houve indignação com a declaração de Friedrich Merz, essa energia deveria ser redirecionada para cobrar satisfação dos patifes que, há décadas, roubam e riem da cara do povo brasileiro, perpetuando um ciclo de patrimonialismo e corrupção descarada.

É fácil taxar de "complexo de vira-lata" quem concorda com a crítica, mas a realidade é que o verdadeiro "vira-lata" é aquele que, coitado, é forçado a viver nas favelas imundas, violentas e desumanas, fruto direto da máversação e da ausência de um estado eficiente. O chanceler alemão apenas verbalizou a imagem de vergonha que nossos próprios governantes criaram e insistem em manter.