Parabéns ao Brasil. Parabéns, acima de tudo, ao seu povo. Afinal, reza o princípio fundamental de qualquer cartilha democrática que todo o poder emana da vontade popular — e é dessa mesma premissa que decorre a velha máxima: cada povo tem exatamente o governo que merece.

Mais uma vez, o cidadão foi às urnas e provou ao mundo que tem convicções inegociáveis. Mostrou que sabe muito bem o que quer para os seus dias e para o destino das próximas gerações.

Pelas decisões sacramentadas, deixou claro que prefere a relativização da vida e o esvaziamento das tradições, da fé e do sagrado, transformando a espiritualidade em artigo descartável. Mostrou conforto com a impunidade sistemática, virando as costas para o endurecimento penal da menoridade e aceitando, com naturalidade quase olímpica, os desmandos e as controvérsias de um Judiciário que frequentemente parece jogar segundo conveniências próprias, e não à luz da justiça cega.

O brasileiro, com sua costumeira docilidade perante o absurdo, parece ter assinado um termo de aceitação com o medo. Normalizou o trancafiar-se atrás de grades, alarmes e muros altos, assistindo com passividade estatística à violência que assombra as ruas e atinge as famílias — inclusive a covardia diária e desmedida perpetrada contra as mulheres, que continuam reféns do desamparo real mascarado por discursos vazios.

Provou-se, no fim das contas, que o pacto com velhos esquemas compensa. Que o compadrio, a fisiologia e o retorno de figuras manchadas por escândalos bilionários são perfeitamente aceitáveis, desde que a engrenagem continue girando para os mesmos de sempre. Provou-se que promessas estruturais — como a dignidade e a água definitiva para o sertão nordestino — podem ser adiadas ou negligenciadas, desde que a narrativa de dependência permaneça intacta. E, de bônus, mandou-se um recado a toda uma bolha de influenciadores e analistas de rede social que juravam ditar o voto e compreender a cabeça do eleitor: na hora da verdade, o cinismo prático fala mais alto que qualquer algoritmo.

Portanto, parabéns. A conta chegou e o recibo está assinado.

O país que passou décadas embalado pela promessa de ser a grande potência do amanhã decidiu, por vontade própria e soberana, acomodar-se confortavelmente no inferno do presente.