Variante da Covid-19 descoberta na África do Sul gera apreensão; veja o que se sabe

Especialistas da OMS acreditam que ‘apartheid vacinal’, que deixou continente africano para trás na imunização, pode ter ajudado na formação de cepa com 50 mutações

Pouco mais de 24 horas após o anúncio do surgimento de uma nova variante da Covid-19 na África do Sul, nações de todos os continentes começaram a articular medidas restritivas e estratégias para evitar a disseminação da “omicron”, como foi batizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para outros países. A cepa foi considerada de uma “variante de preocupação” pelo órgão, mesmo grupo da alfa, beta, gama e delta. De acordo com informações cedidas em uma coletiva de imprensa, a cepa, identificada pelo pesquisador brasileiro Tulio de Oliveira, do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul, mostra “um grande salto na evolução” do vírus, com pelo menos 50 mutações, a maioria delas na proteína spike, que ajuda o vírus a entrar nas células humanas. A maior parte dos casos detectados na África do Sul está na província de Gauteng e ainda é cedo para saber como o vírus reagirá às vacinas que são aplicadas atualmente no mundo. Parte das mutações já foram encontradas em outras cepas e outras são completamente novas, mas o consenso entre os cientistas é de que não é possível responder todas as perguntas sobre a mutação no momento.

Especialistas da OMS denunciaram que o surgimento da nova mutação pode ser considerado um reflexo do “apartheid vacinal” vivido no mundo. De acordo com a plataforma Our World In Data, enquanto 53,9% de toda a população mundial recebeu pelo menos uma dose do imunizante contra a Covid-19 e alguns países estão aplicando terceiras doses em seus cidadãos, apenas 5,6% da população das nações pobres foi parcialmente vacinada até o momento. Na África do Sul, cerca de 23% das pessoas estão totalmente imunizadas, o que mostra uma desigualdade na distribuição, mas levanta a esperança de que o vírus não se espalhe com tanta facilidade em populações que aderiram mais às vacinas, como o Brasil.

Infecções encontradas fora da África

Na manhã desta sexta-feira, 26, poucas horas após o anúncio da nova variante, o Ministério da Saúde de Israel anunciou que detectou um caso da B.1.1.529 em um viajante vindo do Malaui. O órgão também informou que outros dois casos em pessoas que chegaram do exterior são investigados enquanto os viajantes estão em confinamento obrigatório. Todos os três casos (suspeitos e confirmado) ocorreram em pessoas vacinadas. O estado de saúde delas não foi divulgado. O segundo caso confirmado da mutação fora da África foi registrado em Hong Kong e na Bélgica, o caso confirmado foi de uma mulher “adulta, jovem, que não se vacinou contra a Covid-19” e tinha feito uma viagem ao Egito. Fora da África do Sul, que tem 77 casos confirmados, quatro registros foram feitos em Botsuana.

Os primeiros países europeus que impuseram restrições aos viajantes do sul da África foram o Reino Unido, Alemanha e Itália. No fim da tarde desta sexta-feira, porém, todo o bloco da União Europeia firmou um acordo para que os voos vindos da África do Sul, Lesoto, Botsuana, Zimbábue, Moçambique, Namíbia e eSwatini fossem suspensos. Além disso, os membros da UE concordaram que os residentes europeus destes países que têm direito a entrar na UE devem ser submetidos a testes e a um período de quarentena. Decisões semelhantes também foram tomadas pelo Canadá e pelo Japão, que anunciou que obrigará todos os viajantes do sul africano a passarem 10 dias de quarentena em um espaço designado pelo governo após chegada no país e a Rússia aplicou a restrição não apenas ao sul da África, mas também a Hong Kong e à ilha de Madagascar.

No fim da tarde, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também se reuniu com conselheiros do governo e decidiu impor restrições à entrada de estrangeiros em voos vindos da África do Sul, Botsuana, Zimbábue, Namíbia, Lesoto, Eswatini, Moçambique e Malaui. Cidadãos do país e estrangeiros com visto de residência permanente poderão entrar no país. “Esta é uma medida de precaução tomada até que tenhamos mais informações”, afirmou o democrata, que também sugeriu que pessoas não vacinadas aproveitassem para se imunizar. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou nota recomendando que o governo brasileiro aplicasse medidas de restrição a voos vindos da África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue. O documento sugere a suspensão imediata de todos os voos vindos dos países, a suspensão temporária da autorização do desembarque de estrangeiros que passaram por algum desses países nos últimos 14 dias e a realização de quarentena para os brasileiros que tenham passado pelos locais. É necessário, porém, uma decisão conjunta entre as pastas do governo federal para que essa recomendação entre em prática.

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