Porque André Mendonça assusta tanto?

Por Kevin Eleto

No dia 24 de setembro escrevi um artigo na Agazetta, intitulado “André Mendonça e os mais de 80 dias de espera”. Falei sobre quem era o escolhido do presidente para ocupar a vaga de ministro do STF, sobre os requisitos necessários para assumir esse cargo e como Mendonça preenchia todas essas descrições. Também mencionei como Davi Alcolumbre, presidente da CCJ e responsável por marcar a sabatina do Senado com o indicado, estava impedido que a pauta desse andamento no congresso. Porem essa atitude do senador, fez sua vida nesses últimos 2 meses se tornar um inferno, exemplo:

A enxurrada de mensagens, recebidas em suas redes sociais, que o fizeram bloquear comentários nelas. E depois por causa da sequentes acusações, como troca de favores com atual chefe do TRE-AP, com um empregando pessoas indicadas pelo outro (com indicados que nem trabalham efetivamente), expondo assim uma estranha mas já imaginável relação entre poder judiciário e legislativo. Outra acusação é um esquema de “rachadinhas” envolvendo seis ex-funcionárias de seu gabinete parlamentar, que o acusam de serem obrigadas a devolver até 90% de seus salários e benefícios (férias, decimo terceiro e outros).    

Mas mesmo assim o presidente da CCJ, segurou por mais de 4 meses a marcação de uma simples sabatina, atitude que incomodou muita gente, no governo federal, na própria câmara do senado e também no Supremo Tribunal Federal. O que reforça que Alcolumbre não estava sozinho dessa trama política, tinha mas pessoas dando suporte. Mas o que estaria por trás de tanto esforço, para atrasar ou impedir que André Mendonça seja o novo ministro do STF?

Uma possível resposta é que, com a saída de Carmem Lúcia da Segunda turma do STF, que estava encarregada da grande parte das ações do âmbito da lava jato, ficará desfalcada. O que significa que o próximo ministro da suprema corte, fará parte dessa turma e irá trabalhar diretamente com os “enroscos” dessa operação. Que ainda envolvem quase 50 políticos, entre eles deputados, senadores, governadores e grandes caciques partidários, como: Renan Filho (MDB-AL), Fernando Pimentel (PT-MG), Ciro Nogueira (PP-PI), Gleise Hoffmann (PT-PR), Humberto Costa (PT-PE), Renan Calheiros (MDB-AL), Romero Jucá (MDB-RR), Arthur Maia (DEM-BA), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Lucio Viera Lima (MDB-BA), Maria do Rosário (PT-RS), Rodrigo Maia (sem partido) e muitos outros.

E como Mendonça já cometeu o “crime” de elogiar publicamente, por diversas vezes a operação lava jato, além de nos bastidores possuir fama de linha dura. Muitos em Brasília torceram o nariz, quando seu nome foi indicado, causando um grande temor entre eles. Imagine o desespero desses políticos ameaçados, sabendo a inclinação do juiz que irá julgar seus casos? E a pressão que estavam realizando para cima de Alcolumbre, para sabotar essa indicação? Ainda mais agora que esta comprovado que o senador, possui o habito de realizar troca de favores com seus parceiros/aliados. Reza a lenda que o sonho desses políticos que estão com a corda no pescoço, seria a indicação de Augusto Aras, para o cargo de ministro. Por já ter feito duras críticas a lava jato, imagina-se que poderia ter maior possibilidade dele ser mais leniente quanto a essas causas.

 Porém não é somente o núcleo político, que está faz campanha contra o novo indicado ao STF, claro que a mídia tradicional brasileira, não poderia ficar de fora dessa. Bolsonaro com seu sarcasmo, resumiu bem o porquê do alvoroço e a grande preocupação deles: “Mendonça é terrivelmente evangélico!”. Como se uma religião pudesse despreparar um indivíduo para a vaga em no STF ou que fosse talvez um pré-requisito. Cometendo assim preconceito para com a crença do próximo, intolerância religiosa e além de demonstrar tamanho desconhecimento para com uma das religiões com mais adeptos do mundo e do Brasil. O jornalista do portal “ISTO É”, Felipe Machado, fez um reportagem “André Mendonça não pode ser ministro do STF”. Nela o colunista conclui, que pelo fato do estado ser laico, o indicado por Bolsonaro, não seria apto para cargo, por ser evangélico.

Dessa maneira ele cria do absoluto nada, uma nova regra para o posto da suprema corte: os indicados devem ser irreligiosos, agnósticos, ou manter suas crenças maquiadas, escondidas aos olhos do público. O que é de uma bestialidade sem medida, pois a própria constituição que o Felipe cita (para basear sua tese furada), diz o seguinte no artigo 5º, VI: estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. E se seguíssemos a linha de raciocínio desse repórter, será que deveríamos “impeachmar” o ministro Barroso, por ele ser seguidor/adepto de João Deus? Ou talvez investigar minuciosamente a vida dos atuais ministros para descobrir os que seguem alguma religião, seja ela qual for e em seguida destitui-los de seus cargos?

Barroso ao lado de João de Deus

Outra situação que gerou polêmica na mídia, foram as afirmações que André Mendonça fez durante uma reunião com obreiros da igreja Assembleia de Deus; “vocês têm autoridade espiritual sobre minha vida”, “Vocês é quem são autoridades sobre mim” e “reconhecimento de submissão”. Isso já foi motivo pra muito pseudo jornalista ficar histérico, maluco, pasmo e estarrecido com tais palavras. Demonstrando no mínimo, falta de conhecimento básico para com a religião evangélica, em que trabalha com afinco princípios como; hierarquização, respeito, autoridade, reverência e consideração. Elementos esses, que são raros e escassos em nossa sociedade atual, talvez até por isso que muitos jornalistas não souberam sequer entender ou reconhecer tais qualidades. Podemos também perceber nessas críticas certo um teor de preconceito contra cristãos, pois várias outras religiões possuem igualmente as mesmas estruturas hierarquizadas como por exemplo e dificilmente são criticadas por esse motivo.

Porem na minha opinião, o maior motivo de Mendonça, assustar tanto algumas pessoas é a possibilidade eminente de termos um ministro mais conservador no supremo tribunal federal. Na atualidade que estamos discutindo várias pautas sensíveis, como maior flexibilização do porte de armas, legalização do aborto, legalização/descriminalização do uso de drogas, casamento com indivíduos do mesmo sexo, liberdade de expressão e muitas outras. A simples possibilidade de ter um ministro que possui opiniões contrárias em relação da esmagadora maioria dos veículos de comunicação e da esquerda brasileira, já coloca essa turma em polvorosa. Ficando assim nítido a falta de espirito democrático dessas pessoas, pois mesmo existindo 9 ministros com ideais claramente e altamente progressistas, exemplo do Barroso e descriminalização do uso de drogas, Rosa Weber e a liberação do aborto, Fachin contra a flexibilização do porte de armas e Moraes contra a liberdade de expressão. São incapazes de aceitarem apenas um ministro com ideias e pensamentos diferentes.

Um dos vários exemplos de progressismo no STF.

E depois de mais 135 dias de espera, contra tudo e contra todos, André Mendonça teve sua sabatina no senado marcada para o dia primeiro de dezembro. É muito importante que o nome dele venha a ser aceito, para compensar o notório desequilíbrio da balança da justiça do STF, que possui hoje um claro viés ideológico de esquerda e progressista. Culpa dos mais de 24 anos de governos de esquerda e centro esquerda, do PT e PSDB respectivamente, que aparelharam a maior estancia da justiça brasileira. Supremo esse que deveria ser o mais plural e heterógeno o possível, para que o debate de ideias, fossem realizados de maneira mais saudável e justa. E não uma panelinha onde todos pensam, agem e até militam de forma igual. Mas somente o passar do tempo para vislumbrar um reequilíbrio ideológico do STF, pois o próximo presidente eleito em 2022 ira poder trocar mais dois ministros. Ou então a queda da famigerada PEC da bengala, que diminuiria a aposentadoria compulsória de 75 para 70 anos, o que abriria de imediato mais duas vagas. Mas sinceramente isso acontecer, seria bom demais pra ser verdade. 

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