A implantação da Zona Azul em Porto Seguro, sistema de estacionamento rotativo pago que está em fase de implementação pela Prefeitura, já provoca fortes reações na cidade — mesmo antes de qualquer cobrança ter sido iniciada. Prevista para iniciar pelo centro urbano, a medida é apresentada como uma solução para a mobilidade e o ordenamento do uso do espaço público, mas a população em geral vem demonstrando forte insatisfação com os impactos previstos, enquanto entidades do setor produtivo defendem a proposta, desde que com critérios técnicos e equilíbrio social.
A implementação segue um cronograma dividido em três etapas: mapeamento e diagnóstico técnico, instalação da sinalização e campanha educativa. A cobrança só será efetivada após a conclusão dessas fases. No entanto, a simples confirmação de que a Zona Azul começará a operar em breve foi suficiente para acender críticas e debates intensos entre trabalhadores, moradores, empresários e visitantes.
“Estão preparando mais uma conta para quem trabalha”
Trabalhadores que atuam no centro da cidade foram os primeiros a se manifestar. Um bancário que usa o carro diariamente para ir ao trabalho relatou preocupação com o impacto financeiro:
“Se for mesmo como estão dizendo, que vai ser R$ 7 por duas horas, vou gastar quase R$ 30 por dia. Em um mês, são mais de R$ 500. É como se eu tivesse ganhando menos. Estão preparando mais uma conta para quem só quer trabalhar.”
Um dentista que atende em uma clínica com vários colegas também manifestou insatisfação:
“Aqui na clínica somos seis profissionais que vêm de carro ou moto. Mesmo quem usa moto, se pagar R$ 10 por dia, já gasta mais de R$ 200 no mês. Para quem ganha salário mínimo ou está começando, isso pesa. E ainda dizem que é para organizar…”
Um vendedor do comércio, que também usa moto, criticou o impacto indireto sobre a rotina:
“A gente vive de comissão, o dinheiro já é contado. Se começar a cobrança, muitos vão arriscar deixar em ruas mais distantes ou buscar vaga em lugar irregular. Aí vem multa. No fim, a Zona Azul pode virar armadilha.”
Turistas também já sentem os reflexos — mesmo antes da Zona Azul
Embora a cobrança ainda não tenha começado, turistas já demonstram insatisfação com a possibilidade de mais um custo em viagens a Porto Seguro. Um visitante de Belo Horizonte relatou o episódio com um flanelinha em frente a um hotel no centro:
“Parecia uma abordagem oficial. O rapaz disse que era da Prefeitura e que era R$ 30 para estacionar ali. Só depois soube que a Zona Azul ainda nem começou. Isso é o que está acontecendo: falta de informação e gente abusando da situação.”
Hoteleiros do centro preocupados com perda de hóspedes
Empresários da hotelaria local, especialmente os com unidades no centro, expressaram forte preocupação. Um hoteleiro da Rua Getúlio Vargas comentou que já recebeu ligações de clientes preocupados com a futura cobrança:
“Tem gente desistindo de reservar por medo de ter que pagar estacionamento na rua. O turista quer facilidade, não mais uma despesa. Se a Zona Azul entrar, vamos perder hóspedes.”
Outro empresário foi mais direto:
“Se o turista souber que em outro bairro não paga nada, ele vai para lá. Estamos criando uma vantagem para os concorrentes de fora do centro. A cobrança nem começou e já estamos vendo as consequências.”
CDL, ABIH e Abrasel apoiam a Zona Azul, mas não participaram da implementação
Apesar das críticas vindas da população, as entidades representativas do setor produtivo reafirmam apoio à Zona Azul, desde que o modelo seja justo, transparente e planejado. A CDL – Câmara de Dirigentes Lojistas, a ABIH – Associação Brasileira da Indústria de Hotéis Regional Extremo Sul e a Abrasel – Associação Brasileira de Bares e Restaurantes Extremo Sul foram as entidades que lideraram, desde 2022, a luta pelo retorno do sistema de estacionamento rotativo em Porto Seguro.
As três entidades, porém, informam que não foram chamadas para participar do processo de licitação, nem da definição da metodologia ou das regras de implantação da Zona Azul, e que não foram consultadas formalmente sobre cronograma, áreas abrangidas ou modelo de operação.
“A CDL foi quem liderou essa pauta junto com os setores produtivos, com foco em garantir rotatividade de vagas, fluidez no centro e estímulo ao comércio. Acreditamos que o sistema pode ajudar a cidade, mas não tivemos participação na fase de execução. A cobrança ainda não começou e nossos associados já têm muitas dúvidas. Esperamos receber as informações oficiais para poder orientar com responsabilidade”, informou a entidade em nota.
A ABIH destacou que cidades turísticas que cresceram rápido, como Porto Seguro, precisam organizar o uso do espaço público para garantir boa experiência ao visitante e viabilidade operacional aos empreendimentos. Já a Abrasel reforçou a necessidade de equilíbrio entre as zonas tarifadas e as áreas destinadas a carga, descarga e abastecimento dos restaurantes.
As entidades reafirmam que continuarão contribuindo com sugestões e diálogo técnico, desde que haja abertura por parte da gestão municipal.
Problemas com flanelinhas também motivam apoio ao sistema
Além da mobilidade, um dos motivos levantados pela CDL para defender o modelo é o problema crônico com os chamados “flanelinhas” — pessoas que se colocam nas ruas para cobrar estacionamento informal.
“Já recebemos relatos de turistas abordados com cobrança de R$ 30, se passando por agentes da prefeitura. Isso é um risco à segurança pública e à imagem do destino. O sistema rotativo oficial, quando bem implantado, ajuda a coibir esse tipo de abordagem irregular, além de trazer organização ao espaço público”, destacou a CDL.
Divisão de opiniões deve se acirrar com o início da cobrança
Mesmo antes de entrar em vigor, a Zona Azul já divide opiniões de forma clara em Porto Seguro. De um lado, trabalhadores, moradores e turistas que veem na medida mais uma cobrança injusta — que atinge quem usa o espaço público por necessidade. De outro, representantes do setor produtivo que alertam para a necessidade urgente de organizar o trânsito, garantir segurança, estimular o comércio e criar equilíbrio urbano para o crescimento da cidade.
A expectativa agora recai sobre a forma como a Prefeitura conduzirá os próximos passos, incluindo o início da cobrança, a comunicação pública e a inclusão das entidades que ajudaram a construir a proposta, mas que não foram envolvidas em sua implementação.

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